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O que aprender com Cristina Kirchner

publicada em 27 de maio de 2019
O que aprender com Cristina Kirchner
Ao renunciar à candidatura à presidência, ela qualificou-se como estrategista da vitória sobre a direita – agora mais possível que nunca. Seu gesto diz muito, a Brasil às voltas com Bolsonaro e a uma Europa ameaçada pelo neofascismo

OUTRASPALAVRAS

OUTRA POLÍTICA
por Antonio Martins


                                                       



No futebol, um drible pode mudar a história de um campeonato. Na Argentina, tão apaixonada quanto o Brasil pelo esporte de Pelé e Maradona ou Messi, a ex-presidente Cristina Kirchner desenhou neste sábado uma jogada mágica. Ao anunciar, em vídeo [incorporado neste texto, logo abaixo], que disputará as eleições presidenciais de 27 de outubro, porém na condição de candidata a vice de Alberto Fernández [veja seu perfil e sua entrevista ao Pagina 12], ela cumpriu três objetivos cruciais, com um único movimento. Ofereceu, ao projeto antioligárquico e antineoliberal que expressa, condições muito mais favoráveis para voltar ao governo, em 2020. Além disso, em caso de vitória, terá sido a estrategista do êxito, mas não arcará com os limites e constrangimentos do exercício direto do poder. Estará muito mais livre para dialogar com a sociedade, para ajudar a mobilizá-la, para pressionar o governo à esquerda. Por fim, desfez o cerne da estratégia do atual presidente Maurício Macri. Incapaz de apresentar aos argentinos qualquer resultado favorável, ele contava esconder o desastre que suas políticas promoveram atrás de um biombo: a rejeição de parte considerável dos argentinos a Cristina. Agora, que perdeu a condição de fazê-lo, sua própria candidatura é contestada por correligionários de direita. A poucas semanas do início do processo eleitoral argentino (as “eleições primárias” de todos os partidos ocorrerão em 11 de agosto), instalou-se a confusão, no campo que reúne hipercapitalistas e ultraconservadores.

O lance de Cristina Kirchner foi feito mesma semana em que, no Brasil, Jair Bolsonaro tenta sair do isolamento apelando à única arma que talvez lhe reste: o sentimento antiestablishment; e em que forças de ultradireita ameaçam mobilizar este mesmo sentimento para avançar consistentemente nas eleições para o Parlamento europeu. Talvez seja possível tirar destes fatos, coincidentes no tempo e semelhantes no sentido, três hipóteses decisivas:


1. O descrédito das instituições é uma marca de nosso tempo e continua crescendo. Toda ação política precisa levar em conta este fenômeno. Segundo as pesquisas de opinião mais recentes, Cristina Kirchner havia ultrapassado Maurício Macri, nas preferências para as eleições argentinas – e era favorita para um eventual segundo turno. Mas o risco a correr era enorme e o que está em jogo não recomenda a aventura. A ex-presidente partia de um índice de rejeição superior 35%. Mesmo após três anos e meio de governo ruinoso, Macri – ou um “novo” outsider com perfil semelhante ao seu – poderia vencer.

Empresário e ex-dirigente de futebol, Macri foi, em um século, o primeiro candidato a vencer as eleições sem pertencer ao Partido Radical (de direita moderada) ou ao Justicialista (“peronista”). Assim como Bolsonaro ou Trump, venceu na esteira do sentimento de revolta popular, diante da crise do sistema de representação. Esta apropriação é fruto de uma reviravolta. O ataque às instituições não é, em geral, uma bandeira da direita. E a crítica ao esvaziamento da velha democracia, com o processo de globalização, foi feita entre outros, ainda nos anos 1990, por jornais como o Le Monde Diplomatique, que falavam em “instituições globalitárias”. Ou por intelectuais como o escritor José Saramago. Numa carta ao Fórum Social Mundial de 2002, ele mencionou os “rituais vazios” da política. Comparou as eleições contemporâneas a uma espécie de “missa laica” – em que os eleitores podem escolher distintas faces e nomes, mas não projetos de futuro.

No entanto, salvo notáveis exceções, a esquerda institucional não foi capaz de dar consequência concreta a esta crítica. Uma “nova” direita, muito mais brutal, o fez, em especial a partir da grande crise pós-2008. Percebeu que havia um vácuo o ocupar. Numa sociedade em que o capital eliminava direitos, era preciso mover o centro de gravidade do debate público. Ao invés do perigoso debate sobre políticas concretas, a crítica vazia “aos políticos” (sem nunca apresentar alternativas…). Ou propostas que explorassem sensações como a de insegurança (porte de armas, por exemplo) ou de desamparo (agenda moralista).

Repare: expressões como antiestablishment aparecem com constância e com destaque, no discurso de personagens tão distintos como Steve Bannon e Jair Bolsonaro. Fazem parte de uma estratégia política ultraoportunista e mesmo cínica, porém eficaz – como demonstram tantos resultados eleitorais recentes. Enfrentar esta estratégia defendendo um sistema político esvaziado (e hostil às maiorias) é desastroso – porque dá tração ao discurso da ultradireita. Cristina Kirchner acertou porque escolheu um caminho oposto.

2. A estratégia da ultra-direita é resistível – desde que não se aceite travar o combate no campo despolitizado que ela propõe. Ao afastar-se da disputa direta pela Presidência, a ex-presidente argentina não deu apenas uma demonstração de desprendimento. Ela sacudiu o tabuleiro, marcado pela ausência de debate, de em que seu oponente pretendia travar a disputa. Uma contenda entre ambos seria extremamente polarizada e, no entanto, muito rala em politização. Conhecemos a história no Brasil. Formam-se dois campos cristalizados e crispados. A adesão a cada um não se dá, essencialmente, pelo diálogo e polêmica, mas pela rejeição liminar do outro.

Este ultra-acirramento mobiliza torcidas e alimenta egos, mas a quem interessa de fato? Aos que contestam as políticas calamitosas em vigor, e teriam tudo a ganhar se houvesse vasto debate sobre elas? Ou aos que, sabendo-se incapazes de defendê-las, buscam mudar de assunto?

Cristina calcula que, se a disputa entre personalismos for esvaziada, as eleições voltarão ao que importa. O vídeo em que anunciou sua decisão de concorrer à vice-presidência é uma provocação ao debate que Macri não desejaria. Está repleto, em fala e imagens, de menções ao empobrecimento dos argentinos, à população de rua, às favelas e lixões, ao fechamento incessante de empresas e à humilhação nacional da volta submissa ao FMI. É Cristina, ficou claro, quem articulará esta narrativa até as eleições. Mas poderá fazê-lo com muito mais desenvoltura agora, que sua figura não será o objeto principal de debate na campanha. Ao renunciar, a ex-presidente – conhecida pela paixão pela polêmica política – tornou-se, paradoxalmente, mais ela própria do que nunca.

3. Os novos combates exigem uma esquerda disposta a se reinventar. A decisão de Cristina é mais uma, numa série relativamente recente – mas notável – de flexões de alguns partidos históricos de esquerda e centro esquerda. O movimento começa no segundo semestre de 2015. Na Inglaterra, depois de anos de burocratização e amortecimento, o Partido Trabalhista foi sacudido pela renovação (por eleição direta) de sua liderança. Jeremy Corbyn, o mais improvável dos candidatos, venceu, porque propôs um programa claro de combate às políticas de “austeridade”, defesa dos serviços públicos, revisão das privatizações. Por duas vezes, os parlamentares do Labour, incomodados, o derrubaram; em ambas, ele retornou, nos braços da base do partido. A mídia o considerava inviável eleitoralmente. Sob sua liderança, os trabalhistas recuperaram-se da derrota eleitoral humilhante de 2012 e são quotados para vencer as próximas eleições parlamentares.

Mais ou menos à mesma época, começava a funcionar, em Portugal, uma curiosa geringonça. O Partido Socialista reviu sua tendência de décadas, de acomodação às políticas neoliberais, coligou-se com duas agremiações à sua esquerda (Partido Comunista e Bloco de Esquerda) e realiza um governo que, embora contraditório, retomou a recuperação dos salários e o investimento público. À época do giro, afirmava-se que naufragaria em poucos meses. Agora, até instituições internacionais ortodoxas como o FMI e o Banco Mundial são obrigadas a admitir os resultados macroeconômicos positivos.

Nos Estados Unidos, ergueu-se, em paralelo e em oposição à onda Trump, uma vaga de esquerda que teve em Bernie Sanders, há três anos, suas grande expressão. A cúpula do Partido Democrata bloqueou sua candidatura à Presidência – que segundo muitas análises teria derrotado a do atual presidente. Mas o movimento não foi contido e desembocou, nas eleições legislativas do ano passado, na eleição de Alexandria Ocasio-Cortez e na formulação da proposta de Green New Deal, que ocupa hoje o centro do debate político no país.

E há poucas semanas, na Espanha, um Partido Socialista renovado percebeu que só venceria as direitas – a tradicional (PP), a brutal (Vox) e a “pós-moderna” (Ciudadanos) se assumisse o choque de projetos e se comprometesse com os interesses das maiorias. Mudou, venceu (também para surpresa de muitos) e cogita fortemente compor-se com o Podemos, para o novo governo que formará em breve.

Com a atitude de Cristina Kirchner, a Argentina prepara-se para integrar o grupo. Resta perguntar: chegará a vez do Brasil?
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