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O cupom de tempo que foi dado a Bolsonaro está terminando, por Fábio de Oliveira Ribeiro

publicada em 27 de maio de 2019
O cupom de tempo que foi dado a Bolsonaro está terminando, por Fábio de Oliveira Ribeiro



O fracasso das manifestações em favor de Bolsonaro no dia 26 de maio de 2019 provam satisfatoriamente que a realidade não pode ser inteiramente modelada com o uso de dados e metadados ou através de campanhas massivas de Fake News.

Por Fábio de Oliveira Ribeiro 

O sucesso do capitalismo pode ser creditado à sua capacidade produzir e colocar no mercado objetos que não existem na natureza (bens industrializados que se tornam indispensáveis) e de monetizar e comercializar bens que não eram originalmente considerados bens econômicos: as terras comunais que existiam na Europa, América, África e Ásia, o trabalho das pessoas que foram expulsas daquelas terras comunais, a religião, a água, a política e, finalmente, os dados e metadados oriundos de nossas atividades “on line”.

Usar a internet tem um preço. Somos obrigados a fornecer às corporações privadas (Facebook, Google, Amazon, etc) o histórico detalhado de todas as nossas atividades que podem ser explorados, se nossa autorização, de maneira lucrativa e política. Nós perdemos nossa privacidade. As empresas ganham a oportunidade de comercializar nossos dados e metadados. Isso para não falar no controle social que se tornou possível quando algumas dessas empresas passaram a alimentar os imensos bancos de dados da NSA.


Uma parte do que os servos da gleba produziam pertencia ao senhor da terra e da guerra. Os escravos trabalhavam sem remuneração e só recebiam de volta dos seus donos o que era indispensável para garantir sua subsistência. Uma parte do trabalho realizado pelo operário é apropriada pelo patrão (os capitalistas chamam isso de lucro, Karl Marx chamou de “mais valia”). No mundo virtual a relação de dependência é total. Via de regra as empresas não são obrigadas a nos devolver nada do que se refira aos dados oriundos de nossas atividades “on line”, nem tampouco são obrigadas a nos pagar pelo uso econômico que fazem deles.

A internet vicia. Mas o nosso vício pode se tornar algo extremamente lucrativo para as outras pessoas. Não só isso. Quase tudo o que nós fazemos fora do mundo virtual (como usar o Uber, por exemplo) será incorporado à base de dados e metadados do dono do algoritmo que poderá explorar as atividades dos usuários para obter o máximo de lucro com o mínimo de custo.

Os rastros que diariamente deixamos na internet, bem como da infraestrutura privada de smarphones que se expande rapidamente, podem ser utilizados para modelar o debate público, para distorcê-lo ou até mesmo para promover rebeliões e mudanças de regime. A democracia brasileira foi vítima deste fenômeno em dois momentos: quando o governo Dilma Rousseff foi desestabilizado com ajuda do Facebook e, depois, durante a campanha eleitoral que levou Bolsonaro á presidência com ajuda das Fake News espalhadas no WhatsApp e nas redes sociais.

O sucesso desse encontro entre o capitalismo e o monopólio das nossas atividades “on line” produziu estragos na democracia brasileira e está arrebentando o sistema político nos EUA e na Europa.

“…fingimos, sim, contar coisas verdadeiras, mas não devemos dizer seriamente que estamos fingindo.” (A ilha do dia anterior, Umberto Eco, edições BestBolso, Rio de Janeiro, 2010, p. 429)

Ao que parece, no Brasil, o fingimento dos donos do Facebook, Google, Amazon etc… parece estar chegando ao fim.

O fracasso das manifestações em favor de Bolsonaro no dia 26 de maio de 2019 provam satisfatoriamente que a realidade não pode ser inteiramente modelada com o uso de dados e metadados ou através de campanhas massivas de Fake News. Os robôs virtuais podem fazer estragos no mundo virtual que produzem reverberações no mundo real. Mas eles não são capazes de encher as ruas. E em algum momento eles se tornam inúteis. Isso já está ocorrendo entre nós porque nada pode alterar a percepção das pessoas quando elas percebem que o governo está prejudicando suas vidas e o futuro dos seus filhos.

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Esse reencontro da política com a realidade não será nem tranquilo nem isento de dor. Os que ganharam o poder sem ter a capacidade ou as condições necessárias para exercê-lo com a liberdade que gostariam ficarão deprimidos e cada vez mais isolados. Aqueles que apostaram dinheiro em reformas que serão interrompidas amargarão prejuízos que consideravam evitáveis. Durante um longo período os empresários continuarão patinando porque acreditaram que a mentira e o ódio poderiam vencer a esperança.

“4 de julho. Os jornais só se ocupam do ‘Caso dos Talões’. O tráfico dos cupons de tempo será o grande escândalo do ano. Em virtude do monopólio dos talões de vida pelos ricos, a economia de gêneros alimentícios é quase nenhuma. Além do mais, alguns casos particulares despertam grande emoção. É o caso citado entre outros, do riquíssimo senhor Wadé, que teria vivido, entre 30 de junho e 1o. de julho, mil novecentos e sessenta e sete dias, ou seja, a bagatela de cinco anos e quatro meses.” (O Passa-Paredes, Marcel Aymé, editora Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982 – conto O Cupom do Tempo, p. 58)

A única coisa que o capitalismo nunca conseguirá dominar e comercializar é o tempo. Numa democracia, os governos têm um tempo de duração pré-determinado. Ele pode ser encurtado por uma crise econômica e política (foi o que ocorreu no caso de Dilma Rousseff e é o que ocorrerá no caso de Bolsonaro), mas raramente pode ser estendido indefinidamente contra a vontade do povo. O custo de manter uma ficção política, de preservar no cargo um presidente que apodreceu rapidamente, é extremamente caro. Como num conto de Marcel Aymé, a realidade sempre se impõe por mais que seja adiada por algum tempo.

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Dia 30 de maio de 2019 o cupom de tempo atribuído à Bolsonaro terá se esgotado completamente. O que vai ocorrer a partir de 1o de junho não é um mistério. Uma tragédia, talvez. Mas ninguém pode dizer que o principal derrotado em 26 de maio de 2019 foi o presidente.

A principal vítima do fracasso do desgoverno Bolsonaro é o Exército. O general Villas Boas errou quando apoiou o golpe de 2016, errou quando ameaçou o STF para manter Lula preso e errou quando apoiou o presidente eleito. Mas ele disse algo absolutamente certo quando afirmou que o Exército vai afundar junto com o mito quer use a força para mantê-lo no cargo quer o abandone à própria sorte na estrada.

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