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Líder de bancada da bala afirma que Bolsonaro corre risco

publicada em 06 de maio de 2019
Líder de bancada da bala afirma que Bolsonaro corre risco
Por Raphael Di Cunto e Marcelo Ribeiro




Presidente da Frente Parlamentar da Segurança Pública, a segunda maior
bancada do Congresso e uma das principais bases de sustentação do governo,
o deputado capitão Augusto Rosa (PR-SP) afirma que a relação com os
parlamentares está tão ruim que, se a economia desandar, há risco real de um
impeachment do presidente Jair Bolsonaro. "É triste uma luta tão grande para
a direita assumir o poder e ver esfacelando a nossa imagem", diz.
Segundo o parlamentar, Bolsonaro tinha a relação com o Congresso como
calcanhar de Aquiles, mas ignorou o problema e assiste a repetição do filme
que levou ao afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff. O vice-presidente
Hamilton Mourão (PRTB), "muito elogiado na Câmara", segundo o capitão, tem conversado longamente com os
parlamentares e se interessou bastante por um perfil dos 513 deputados elaborado por Rosa na forma de um jogo de cartas
- um "super trunfo" - para influenciar nas votações.
O presidente da "bancada da bala" é policial militar da reserva e está no segundo mandato como deputado. Com pouco
mais de 100 dias de governo, ele defende mudar toda a articulação política, reclama do "chá de cadeira" dado até pelo
quarto escalão e vê um rompimento irreversível com os partidos. Conta que tentou por 50 dias alertar o ministro-chefe da
Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Sem sucesso, renunciou à vice-liderança do governo na Câmara. Leia, a seguir, a entrevista ao

Valor realizada na terça-feira:

Valor: Por que o senhor renunciou à vice-liderança do governo?
Capitão Augusto Rosa: Fui o primeiro deputado a subir na tribuna para defender o apoio à eleição do Bolsonaro, contra
o meu partido, que perdi a chance de presidir por causa disso. Tentei contribuir, mas se estou vendo que não consigo
porque não escutam, melhor sair fora. Está péssimo o relacionamento. Muito, muito ruim. De cada 10 deputados, oito
reclamam e dois ficam quietinhos. Ninguém defende o governo.

Valor: O que o senhor sugeriu?
Rosa: A estrutura política está completamente errada. O Bolsonaro sempre teve péssimo relacionamento na Casa. Nunca
foi de dialogar, de ter grupos, de relatar projetos, convencer os outros. Na última vez que tentou a eleição para a
presidência teve quatro votos. Eu e mais três. Se o tendão de Aquiles é o Legislativo, o ministério mais forte deveria ser o de
Relações Institucionais para compensar. Qual a primeira coisa que ele faz? Extinguiu o ministério que possibilitaria
aprovar os projetos do Paulo Guedes, do Moro e por aí vai.

Valor: Mas as funções foram incorporadas pela Casa Civil.
Rosa: Um erro tremendo. A Casa Civil não tem tempo para o corpo a corpo. Para piorar, o Onyx [Lorenzoni] tem rusgas
com os deputados, falam que ele não cumpriu os acordos nas 10 Medidas [de Combate à Corrupção]. Criaram a Secretaria
de Governo porque viram que não ia dar certo, mas colocaram o general Santos Cruz, um cara com relacionamento muito
06/05/2019 Líder de bancada da bala afirma que Bolsonaro corre risco
https://www.valor.com.br/imprimir/noticia_impresso/6239915 2/4
difícil, você não vê ele nem sorrir. Os deputados não vão lá e ele nunca ligou para conversar, e isso porque sou presidente
da frente da segurança, vice-líder do governo, vice-líder do PR.

Valor: Os líderes no Congresso não ajudam nessa interlocução?
Rosa: Colocaram como líder do PSL, o partido do presidente, o delegado Waldir. Deus do céu. Ele é meu amigo, mas é um
cara caricato, briguento. O líder do governo na Câmara, que é uma função que você dá para outro partido em troca de
apoio, é do PSL, o Vitor Hugo, que não foi aceito. Quando o líder do governo chega numa sala, o pessoal vai cumprimentar.
Com ele não estão nem aí. Deveria ser trocado. A cereja do bolo é a [líder do governo no Congresso] Joice [Hasselmann]
que, além de ser do PSL, é muito estrela, não tem tempo para fazer o corpo a corpo.

Valor: Mas isso afeta a relação?
Rosa: O governo não entende que o regime é presidencialista, mas a Constituição é parlamentarista. Para aprovar os
projetos depende do Congresso. Os ministros dão chá de banco nos deputados, não atendem. Eu posso trocar WhatsApp
com Bolsonaro, Moro e Onyx, mas prefiro fazer como todos os deputados, por ofícios. Mandei um para o Onyx para
conversar sobre os problemas. Ficou 50 dias sem resposta. Decidi deixar a vice-liderança do governo e mandei uma
mensagem para ele, por consideração. O Onyx falou para nos encontrarmos no dia seguinte. Cheguei e não estava marcado.
Espera, espera, espera. Deu uns 45 minutos e outras pessoas, que não são parlamentares, passando na frente. Se fossem
parlamentares eu até entendia. Se a reforma da Previdência é a prioridade do governo, os parlamentares são a prioridade.

Valor: Não é fato isolado?
Rosa: Se fosse já era problema, mas ocorre até com o terceiro e quarto escalões. Tem 180 militares no governo. Militar
sempre tem hierarquia, está acostumado a cumprir ou dar ordem, não a negociar. Ouvi de alguém muito importante nos
bastidores que o Bolsonaro confundiu e achou que foi eleito dono do Brasil. Quando você é dono, você manda, mas quando
você é presidente você comanda, compartilha o poder com os outros para se sentirem parte do governo.

Valor: Não é o toma-lá-dá-cá?
Rosa: Misturaram isso com a nova e velha política. O que existe é boa ou má política. A boa política é feita de forma
republicana, sem interesse pessoal, sem carguinho para parente, sem querer meter a mão. Isso o governo está fazendo e
todo mundo aceita. É só estabelecer critérios para as indicações, dizer: quero pessoas qualificadas, honestas e vai passar
pelo meu crivo. Hoje as pessoas não se sentem governo, por isso o PSL está sozinho na base.
Ou vai pelo amor, ou vai pela dor, e o governo federal verá da pior forma o deterioramento da relação
com o Congresso

Valor: Qual o reflexo nas votações? Há risco para a Previdência?
Rosa: Sangraram até na Comissão de Constituição e Justiça para aprovar a reforma. Se não fosse o [presidente da
Câmara] Rodrigo Maia, nem tinha passado. Há mais de um mês avisei: o comentário geral é que não interessa para
ninguém o paciente morrer, ninguém ganha dinheiro em terra arrasada, mas o governo quer R$ 1,2 trilhão [de economia]
para o paciente virar triatleta e o pessoal não quer porque acha que o governo não merece. Ficará uns R$ 300/400 bilhões
porque assim o paciente sai da maca, mas não ganha fôlego. O Paulo Guedes falou que, se passar R$ 400 bilhões,
sobrevivemos a esse mandato, mas terá problema lá na frente. Será uma minirreforma.

Valor: Vê alguma saída?
Rosa: O que poderia melhorar a situação seria o Bolsonaro encampar o que a gente falava na pré-campanha: acabar com a
reeleição. Acho que ajudaria. Saciaria um pouco a oposição saber que ele não viria para a reeleição, poderiam apoiar para
plantar agora e colher lá na frente.

Valor: Quais emendas a bancada da bala defenderá na reforma?
Rosa: Que os guardas municipais e polícia técnico-científica sejam enquadrados junto com as demais polícias, com
mesmas regras. Não tenho nem ideia de qual o impacto [orçamentário], a gente vai brigar por direitos. Se falar que será de
R$ 300 bilhões, aí temos que ver, mas nunca nos chamaram para reunião sobre isso. Nem o Bolsonaro, nem Onyx.
06/05/2019 Líder de bancada da bala afirma que Bolsonaro corre risco
https://www.valor.com.br/imprimir/noticia_impresso/6239915 3/4

Valor: Como essa falta de diálogo afeta o governo?
Rosa: Para você ver que o governo não está interessado na verdade. Já que não falei pessoalmente com o Onyx sobre os
motivos da minha renúncia, achava que iam me ligar depois, ou ele ou o Bolsonaro, para conversar. Não ligaram. Ou vai
pelo amor ou pela dor e, infelizmente, o governo verá da pior forma o deterioramento na relação com o Congresso.

Valor: Como assim?
Rosa: Já deram vários recados. Votaram projetos [contra o governo], não tem um partido coligado, a reforma passou
sangrando. O Bolsonaro recebeu todos os partidos e as três bancadas - boi, bala e bíblia - e ninguém declarou apoio a
reforma. Precisa de mais indicativo? Na transição, fui na casa dele e disse que não importa como a gente entra, mas como
saímos. O Collor entrou ovacionado e saiu vaiado. A Dilma foi reeleita e saiu daquele jeito.

Valor: Tem risco de ele não terminar o mandato?
Rosa: Tem

Valor: Qual o nível desse risco?
Rosa: Gosto de estudar política. Na época da Dilma, fiz um diário com o escalonamento dos sinais de insatisfação. Um: A
base aliada parou de defender o governo. Hoje, tirando dois ou três gatos pingados, ninguém sobe na tribuna. Nas rodinhas
[de deputados] também não importa se tem gente do PSL, o cara senta o pau e ninguém, nem o do PSL, defende. Dois: O
pessoal fala mal publicamente, reclama nos grupos de Whatsapp, até nos que o Eduardo Bolsonaro [filho do presidente e
deputado] participa.

Valor: Não é normal criticarem o governo nesses ambientes?
Rosa: O pessoal costuma se preservar porque sempre precisa de algo do governo, ser atendido por ministro, liberar
emenda. Quando chega nisso de mandar [o governo] "tomar banho" é grave. Depois começam a votar projetos menos
relevantes para dar umas pauladas e, se não tem resultado, derrotam ou adiam os projetos mais relevantes.

Valor: Como a reforma.
Rosa: Para ver onde já estamos. O governo oferece cargos e o pessoal não quer. Não estão oferecendo, mas vários partidos
falaram que não aceitarão. Por último, o pessoal se recusa a participar de eventos do governo. Só olhar a participação do
Bolsonaro na Agrishow [feira da agropecuária]. A Dilma e o [Michel] Temer levavam uns 20 deputados junto, iam no avião
presidencial para prestigiar. Só vi um deputado na foto com o Bolsonaro.

Valor: A situação é crítica?
Rosa: É o retrato da Dilma, parece um filme repetindo. O governo tem que agir rápido, mas infelizmente acho que o
Bolsonaro não tem ideia do que está se passando. É triste ver uma luta tão grande para a direita assumir o poder e ver
esfacelando, segundo as pesquisas, a nossa imagem.

Valor: Ele aposta em jogar a opinião pública contra o Congresso?
Rosa: Talvez, mas não funciona. O Congresso está aguardando, cozinhando o galo, como se diz no interior. Sabem que não
é hora de brigar porque ele ainda está fortalecido, tem popularidade, mas que tende a diminuir se a economia não for bem.
Minha avó dizia: quando o problema financeiro entra pela porta, o amor sai pela janela. Se o cara perde emprego, a
gasolina sobe, o humor muda.

Valor: É isso o que falta para o impeachment, a economia parar?
Rosa: Se a situação econômica estivesse boa com a Dilma, o Congresso não conseguiria tira-la. O bombeiro fala que o
ambiente está gasado, falta só a faísca para explodir. Ambiente gasado tem insatisfação política e insatisfação popular. A
insatisfação política já está instalada, a olhos vistos. E se você juntar com a insatisfação popular, só falta uma faísca [estala
os dedos].

Valor: Mas o Mourão assume?
Rosa: O Mourão assume sim.

Valor: Acha um bom nome?
Rosa: Gosto dele. Gosto do Bolsonaro e do Mourão, os dois são amigos né. Os dois são ótimos.

Valor: Já foram amigos, né, a relação não está das melhores.
Rosa: Eu até ia conversar com o Mourão hoje porque pedi para ele receber um prefeito, mas era na hora do voo. O pessoal
na Câmara elogia muito ele. Está numa função mais tranquila, não precisa ficar decidindo, não é vidraça. E tem tempo, os
deputados vão lá [e ficam conversando]. Fui mostrar meu livro, eram 15 minutinhos e fiquei 1h30 batendo-papo sobre
política. Ele ficou muito interessado no meu super trunfo.

Valor: O que é isso?
Rosa: É um baralho que uso para aprovar projetos. No primeiro mandato aprovei emenda à Constituição e a lei que salvou
os rodeios. Fiz um perfil dos 513 deputados e atribui pontuação para cada um, o quanto têm de prestígio, o quanto
influencia os votos e a mídia. Se preciso de apelo popular, vou atrás de quem tem mídia. Se preciso votos no plenário, vou
atrás de alguém influente. De 513, uns 30 que influenciam o voto mesmo. Não precisa ficar conversando com quem não
influencia.

Valor: O Bolsonaro viu?
Rosa: Quem se interessou foi o Mourão. Quer que eu explique o passo a passo. Toda semana converso com 50 deputados
diferentes. Sento no cafezinho e quero saber o que estão achando. Levei isso ao governo, mas parece que não estão
interessados.

Valor: Esse sentimento é do senhor ou da bancada da bala?
Rosa: Não é opinião pessoal, é o sentimento geral da Casa. Estou com o Bolsonaro até o fim. Se tiver impeachment, eu
voto contra, subo, defendo, brigo, uso meu super trunfo. Se afundar o barco, afundo junto. Mas vocês estão ouvindo
alguma coisa diferente do que estou falando?

Valor: Vê sinais de que o governo está percebendo isso e vai mudar?
Rosa: Os partidos não quererem mais participar do governo não dá para reverter, só minimizar. Era algo normal compor o
governo distribuindo cargos aos partidos. Como presidente da frente, eu queria ter indicado o secretário de segurança
nacional [Senasp]. O interesse é escuso? Não, é a nossa bandeira. Se tenho um cara lá afinado comigo, é mais fácil
articular.

Valor: O governo não ofertou, mas se oferecer eles aceitam.
Rosa: Demonizou tanto que partido nenhum é louco de pegar ministério ou cargo. Vão falar que estavam na oposição
porque não tinham cargos e chamar de prostituta, que se vende em troca de cargos. Quem é louco de aceitar isso? Com 100dias, já se tornou irreversível.

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