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Operação Condor decidia execução de presos políticos por voto, revelam documentos

publicada em 03 de maio de 2019
Operação Condor decidia execução de presos políticos por voto, revelam documentos



Membros do aparato repressor pagavam anuidade e cumpriam expediente em Buenos Aires







SYLVIA COLOMBO

BUENOS AIRES (FOLHAPRESS) - A terceira e última entrega de documentos oficiais americanos sobre a mais recente ditadura argentina (1976-1983) revela detalhes do funcionamento da Operação Condor (formada pelos governos militares do Cone Sul nos anos 1970 para a troca de inteligência e perseguição de inimigos do regime), cuja sede operacional foi Buenos Aires, e como foram assassinados pela repressão local dezenas dos até hoje considerados "desaparecidos".

A entrega de documentos responde a um acordo feito entre o presidente Mauricio Macri e o então mandatário dos EUA, Barack Obama, durante sua visita à Argentina, em 2016.

Seu sucessor, Donald Trump, manteve o compromisso e entregou, na sexta-feira, a última leva de arquivos, que consiste em 47 mil páginas, ainda não disponibilizadas à consulta aberta, mas cujo conteúdo já começou a ser divulgado.

Trata-se de um conjunto de correspondências entre a embaixada norte-americana na Argentina e seus adidos militares no país a autoridades norte-americanas, além de informes realizados pela CIA e o FBI com base nessas informações.

"Ainda não conhecemos todo o conteúdo, mas os documentos são importantíssimos, pois podem ajudar a alimentar os julgamentos de crimes de lesa humanidade que ainda estão abertos e acrescentar aos que já foram encerrados. Além disso, podem colocar ponto final a algumas das trágicas histórias de desaparecidos cujo fim ainda não conhecemos", diz à reportagem Gastón Chillier, do Cels (Centro de Estudos Legais e Sociais), a principal organização de defesa dos direitos humanos da Argentina.

Sobre a Operação Condor, há mais informações sobre a relação dos líderes militares argentinos com os uruguaios e chilenos. Brasil e Bolívia aparecem com menor destaque nessa documentação.

Confirma-se, porém, que os EUA não apenas acompanharam as ações da Condor como auxiliaram em termos de inteligência e de cooperação, inclusive levando agentes sul-americanos para treinamento em território dos EUA.

Os documentos detalham as reuniões em que se tomavam as decisões sobre quem seriam as vítimas de cada operação. Curiosamente, a escolha se dava de modo "democrático". Ou seja, os líderes militares dos países votavam quais perseguidos políticos tinham de ser executados primeiro, onde e de que forma.

Há informações precisas sobre o modo como cada agente deveria atuar, da vestimenta ao veículo que utilizaria. Incluía os custos para comprar as roupas e os gastos das diárias. Em alguns casos, eram contratados assassinos de aluguel, a quem pagavam US$ 3.500 por perseguir e matar uma pessoa.

O centro de operações da Operação Condor funcionava diariamente em Buenos Aires entre 9h30 e 19h30 e era integrado por oficiais dos países diretamente envolvidos (Argentina, Chile, Brasil, Bolívia, Peru, Paraguai, Uruguai).

O custo da operação como um todo era compartilhado entre os países membros, que deveriam aportar US$ 10 mil ao entrar, depois uma anuidade.

A colaboração dos EUA, porém, não foi constante. Como já havia sido revelado no pacote de documentos entregues antes deste, o então secretário de Estado, Henry Kissinger, enquanto esteve no cargo (1973-1977) era um apoiador efusivo da Operação Condor.

Ao governo argentino, inclusive, Kissinger teria dado o aval dos EUA com relação à execução dos opositores (membros das guerrilhas montoneros, ERP ou militantes de outras agrupações), acrescentando apenas que "o que tenham de fazer, façam, mas quanto mais rápido, melhor".

A posição dos EUA com relação às ditaduras sul-americanas, porém, teve uma mudança radical quando o democrata Jimmy Carter assumiu o poder, em 1977.

Os EUA, então, passaram a pressionar de modo contrário, pelo fim da repressão, e a colaborar nas denúncias dos abusos de direitos humanos cometidos pelos regimes militares da região.

Quando aceitou entregar os documentos classificados, Obama disse que era essa a atitude dos EUA que ele gostaria de reivindicar, e não a dos EUA que apoiaram os generais.

Quanto aos casos dos desaparecidos que os novos documentos dão por mortos em operações dos grupos de tarefa argentinos ou da Operação Condor, trata-se de "dezenas". Isso pode mudar o rumo e mesmo permitir encontrar os culpados e iniciar novos julgamentos. A lista completa, porém, ainda não foi divulgada.

Alguns relatos já conhecidos são devastadores. Conta-se, por exemplo, como foi o sequestro dos cubanos Jesús Cejas Arias e Crescencio Nicomedes Galañena Hernández, que teriam sido sequestrados e levados a um centro de detenção clandestina, onde foram torturados até a morte. Depois, seus corpos teriam sido envoltos em cimento e, depois, jogados no rio Paraná. Até hoje não foram encontrados.

Há outro que relata o sequestro de uma psicóloga argentina, que era cadeirante, e que foi torturada porque atendia a suspeitos de participar de atividades de subversão. Os repressores exigiram que ela entregasse seus nomes.

Para a promotora María Ángeles Ramos, "os documentos vão ajudar a vários processos em andamento, e mesmo os já concluídos, pois o mais importante, ao final, é conhecer a verdade sobre aqueles anos", afirmou.

Até agora, a Argentina já realizou 3.000 processos contra repressores, havendo mais de 800 deles condenados e 200 aguardando decisões.

Já os números da repressão são motivo de disputa. Com base em documentos e estudos mais recentes, historiadores acreditam que a cifra mais correta estaria em torno dos 20 mil desaparecidos. Organizações de direitos humanos dizem que foram mais de 30 mil.

Os documentos dos EUA talvez ajudem também a dirimir essa dúvida, que também polariza opiniões na Argentina.



Fonte: Gaúcha ZH, 16/04/2019
Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/mundo/noticia/2019/04/operacao-condor-decidia-execucao-de-presos-politicos-por-voto-revelam-documentos-cjukc3z30056l01pr8zsq1k5x.html 
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