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BETH CARVALHO: MULHER, CANTORA, ARTISTA E PATRIOTA!

publicada em 02 de maio de 2019
BETH CARVALHO: MULHER, CANTORA, ARTISTA E PATRIOTA!





O PÁGINA 64 está de luto. Morreu hoje, aos 72 anos de idade, a Rainha do Samba, Beth Carvalho, um símbolo não apenas da música e da cultura brasileiras, mas também da resistência à ditadura e do compromisso ao ideário nacionalista.

A cantora e compositora, ao longo de mais de 50 anos de carreira, fez parceria com os maiores nomes da música popular brasileira e interpretou clássicos que ficarão para sempre na memória dos brasileiros que amam aquela que é a maior expressão de nossa música de raiz.



Beth foi também uma militante política. Dirigente do PDT, ao lado de Leonel Brizola, lutou contra a ditadura, cantou a liberdade e pregou a construção de uma nação independente.

O PÁGINA 64 não poderia fazer uma homenagem maior à Rainha do Samba do que reproduzir uma entrevista que ela concedeu, com exclusividade, ao Jornal Página 64, publicada, precisamente, no dia 22 de julho de 2010, ao então editor-chefe daquela publicação, Mário Augusto Jakobskind.



Nessa entrevista, ela fala de sua trajetória artística e de seu engajamento nas lutas populares e nacionais, seguindo o ideário transmitido pelo pai que foi perseguido pelo golpe de 64.

Vamos à entrevista na íntegra, em boa parte atual como nunca, cuja reprodução só amplia a grandeza de Beth Carvalho, uma mulher, uma cantora, uma artista e, acima de tudo, uma grande patriota, que nos deixa um extraordinário legado. (João Vicente Goulart).



Beth Carvalho, uma cantora engajada que segue o ideário nacionalista transmitido pelo pai perseguido pelo golpe de 64



Beth Carvalho, a Madrinha do Samba, uma cantora engajada, que seguiu o ideário do pai, João Francisco Leal de Carvalho, um apoiador de Getúlio Vargas, Jango, Brizola e de Luis Carlos Prestes, nesta entrevista exclusiva para o Página 64 explica como o samba é revolucionário e como a moça da Zona Sul carioca veio a se tornar a ponte musical entre essa área da cidade e o subúrbio carioca. Engajada na política e nos movimentos sociais, Beth Carvalho mostra também que a melhor coisa na vida é cantar samba e lembra passagens do Cacique de Ramos, onde ao descobrir inúmeros talentos veio a se tornar a madrinha do samba. Ela explica o motivo pelo qual já escolheu em quem vai votar na eleição do próximo mês de outubro que apontará o sucessor do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Beth Carvalho, a artista negra, na concepção de Martinho da Vila, pois “quem abraça a causa negra é negra”, fala também dos seus projetos musicais, inclusive a idéia de gravar músicas revolucionárias latino-americanas. Ela recebeu o repórter em seu apartamento de São Conrado, onde logo na entrada se encontra uma placa de rua com o nome de Nelson Cavaquinho, uma homenagem ao grande compositor que Beth Carvalho tão bem interpreta. (Mário Augusto Jakobskind)

Página 64 – E aí, como surgiu a cantora Beth Carvalho?

Beth Carvalho: Desde criança eu cantava, ficava atenta às músicas e a minha família era ligada à música. Minha avó tocava violão, meu pai, João Francisco Leal de Carvalho era amigo de Elizeth Cardoso, Aracy de Almeida e Sílvio Caldas. Papai recebia esse pessoal em casa e eu ficava ouvindo com muita atenção os papos e, claro, a cantoria. Tudo isso teve influência na minha formação.
Depois, quando adolescente eu comecei a cantar em festas e fui cada vez mais me aprofundando até chegar 1965 quando gravei o meu primeiro disco, na época ainda era disco e de 45 rotações.

E a Beth Carvalho engajada na política e nos movimentos sociais?

Beth Carvalho: Também foi influência da família. Meu pai, que trabalhava na alfândega como conferente, era um cara muito politizado, um nacionalista que apoiava Getúlio Vargas, Jango, Brizola e também simpatizava com o Luis Carlos Prestes. Eu e minha irmã fomos conhecendo o mundo através desses parâmetros. Eu lembro perfeitamente que em 24 de agosto de 1954 quando soube que o Getúlio tinha morrido eu chorei uma semana. Era criancinha, tá certo, mas já me identificava com o Presidente, claro, por influência do meu pai. E permaneço fiel hoje aos mesmos ideais nacionalistas. Acho o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, o MST o mais importante movimento surgido no Brasil nos últimos tempos, acho que até mesmo na América Latina. Estou solidário com os ideais do MST por uma reforma agrária, que o Jango já tinha adiantado antes de ser derrubado pelo golpe de abril de 1964. Considero o João Pedro Stédile uma liderança muito lúcida, uma figura muito importante.



Em que o golpe de 64 afetou a família Carvalho?

Beth Carvalho: Foi um momento muito difícil para toda família. Meu pai foi preso, afastado da alfândega. A família não era milionária, mas vivia bem, as filhas educadas nos melhores colégios da classe média carioca, como o Andrews, em Botafogo, fazendo o ginásio e o clássico, e antes, o primário no colégio Cristo Redentor, na Urca, o bairro onde moramos algum tempo. Pois bem, papai foi afastado da Alfândega e teve de arranjar outros trabalhos para que a família não passasse privações. Para você ter uma idéia, eu mesma passei a dar aulas de violão para ajudar. Meu pai virou massagista. Foram tempos de sufoco provocados pela ditadura.

Então você que fez a opção pelo trabalhismo seguindo as pegadas do seu pai, o que se lembra do Governo Jango?

Beth Carvalho: Eu seguia os líderes que mencionei antes. Do governo Jango me lembro da reforma agrária na beira das estradas, da lei de remessa de lucros, das demais reformas de base, da aproximação com a China e com o Leste Europeu. Jango enxergava na frente e muita coisa que ele tentou fazer naquela época acabou se tornando realidade com o passar do tempo, como o relacionamento com a China, que hoje é o principal parceiro comercial do Brasil.

Voltando ao samba, como surgiu a madrinha do samba, a Beth Carvalho que já foi chamada pelo jornalista Sergio Cabral de “túnel Rebouças” (risos), que liga a zona Sul a zona norte e subúrbio carioca? Como uma jovem da Zona Sul carioca ingressou no mundo do samba e passou a fazer a ponte entre a classe média e o povão?

Beth Carvalho: Exato, mas vamos fazer um parêntesis para entender melhor o motivo pelo qual eu procuro unir a zona Sul com o subúrbio carioca. Minha mãe, dona Maria Nair Santos Leal de Carvalho tinha amigas que moravam em bairros do subúrbio, Bangu, Realengo, Madureira etc. Ela as visitava e sempre me levava. Fui me acostumando e para mim não havia diferença. Íamos de trem e achava os passeios muito legais, um barato. Isso também ficou em mim, graças a Deus. Desde cedo, nos colégios que estudei, eu batia papo com todo mundo, com os empregados, o pessoal da faxina. Ao contrário de muitos alunos de então eu me comunicava com esse pessoal de igual para igual. Não fazia diferenças. Isso ficou em mim, faz parte da minha maneira de ser. Então, como sambista, curtindo o samba das raízes, também gostava da Bossa Nova com Nara Leão, Menescal, Bóscoli e tantos outros. Circulava muito pelos subúrbios e me apaixonei pelo Cacique de Ramos, onde tive oportunidade de conhecer muitos e muitos sambistas. Olha, são tantos que não dá para citar todos.

Você então descobriu e colocou na mídia nomes como Luis Carlos da Vila, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Almir Guineto, Sombra, Sombrinha, Jorge Aragão e para não falar do grupo Fundo de Quintal. E muitos outros.

Beth Carvalho: Exato. O Cacique de Ramos foi para mim um centro de aprendizado e um local que se tornou também ponto de encontro de sambistas. Aí começou a circular nos arraiais do samba a informação de que a Beth estava por lá descobrindo talentos. Foi tudo maravilhoso. Passaram a me chamar de madrinha, o que muito me honra.

E aí o Cacique ganhou projeção nacional com o samba que identifica o grupo. O samba que diz que o Cacique de Ramos acabou de chegar…, sou caciquiano….

Beth Carvalho: Exato.

E tem Cartola que você também popularizou. Tem o Nelson Cavaquinho, que tem placa com nome de rua logo na entrada do seu apartamento em São Conrado.

Beth Carvalho: As Rosas não falam, O Mundo é um Moinho. Tudo que vem do Cartola é maravilhoso. Nelson Cavaquinho deveria ser nome de rua no Rio. Como não tem, está garantido aqui neste espaço aqui. Querem coisa melhor do que Folhas Secas, do Nelson e do Guilherme de Brito.

Beth Carvalho, a sambista cuja voz já esteve até em Marte…

Beth Carvalho: O coisinha tão bonitinha do pai…, do Jorge Aragão, que fez uma bela homenagem a filha, acabou sendo apresentada quando um robot da Nasa foi “acordado” no planeta vermelho de Marte. E tive a sorte de ser escolhida pela engenheira brasileira Jacqueline Lyra que lá trabalha. No início quando me informaram pensei que fosse brincadeira, mas quando confirmei que era mesmo verdade, foi demais a emoção.

O seu amigo Martinho da Vila deu um recado histórico para a madrinha do samba ao afirmar que você abraçou a causa negra. O que ele disse exatamente para a moça branca da Zona Sul?

Beth Carvalho: O que para mim é motivo de muito orgulho! O Martinho disse que “a Beth abraçou a causa negra e quem abraça a causa negra vira negra. A Beth, portanto é uma negra”.

Voltando à política….

Beth Carvalho: Mas quem disse que a gente saiu da política? O samba é revolucionário, é linguagem popular. Erram redondamente os que consideram o samba, que é alegria, alguma coisa alienante. Nada disso, ter alegria é ser resistente. Você enfrenta situações adversas com alegria e as muitas letras de samba na ditadura, por exemplo, falavam contra o arrocho salarial e outras injustiças sociais. Algumas indicavam que o salário não dava etc, outras apontavam injustiças e outras “se gritar pega ladrão, não sobra um meu irmão…”

A censura não percebia e não se incomodava, graças a Deus, porque partia do equívoco que o samba era alegria, portanto alienante. Passava tudo… Os censores baseavam a tese no senso comum, que muita gente que não entende dessas coisas repete bobamente.

Então o samba tirava uma de Garrincha, driblava o João, no caso a censura, na maior…

Beth Carvalho: (risos ) É por aí. E quero dizer ainda mais: cantar samba é a melhor coisa que existe. Não tem nada melhor na vida do que cantar samba.

Então o samba segue firme e forte?

Beth Carvalho: Cada vez mais firme e forte.

E a Estação Primeira de Mangueira.

Beth Carvalho: É a minha preferida, a primeira e única.

E o Botafogo? Uma mangueirense não deveria ser Flamengo?



Beth Carvalho: Por quê? Botafogo é o Botafogo, complementa Mangueira…

Beth Carvalho, você que, tenho certeza, está acompanhando o que se passa na América Latina, como está vendo hoje o nosso continente?

Beth Carvalho: Acompanho sim; É maravilhoso o que está acontecendo. Temos o índio, Evo Morales na Bolívia, o militar, Hugo Chávez, na Venezuela, o operário, Lula, no Brasil, as mulheres na linha de frente, como Cristina Kirchner na Argentina. Temos Cuba, país pioneiro que enfrenta um vergonhoso bloqueio e resiste bravamente. Enfim, o continente latino-americano em processo de transformação, seguindo o caminho irreversível da justiça social e da defesa da soberania nacional. Acabaram-se os tempos de quintal e pátio traseiro dos Estados Unidos…

Neste contexto latino-americano que você menciona, tem algum projeto na área musical que pretende colocar em prática?

Beth Carvalho: Tenho sim. Pretendo gravar músicas revolucionárias de vários paises da nossa América. Meu sonho é gravar em algum teatro em Cuba ou na Venezuela. Infelizmente, neste trabalho não teremos mais a grande Mercedes Soza, que já não está mais entre nós, o que lastimo, pois também estava no projeto reunir o primeiro time da música latino-americana. E Mercedes era a primeira. Tem Pablo Milanês, Silvio Rodrigues e por aí vai. O sonho em algum momento vai se realizar, não tenho dúvida.

Beth, com tantos anos de carreira, quantos discos, cds e dvds você já gravou?

Beth Carvalho: São 45 anos de carreira profissional iniciada, como já disse, em 65 com o compacto simples “Por quem morreu de amor”, de Menescal e Boscoli, e em 68 com Andança, do Eduardo Souto, Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi, que teve projeção nacional. Foram 40 gravações.

Além das músicas revolucionárias latino-americanas, quais outros projetos você tem em vista?

Beth Carvalho: Pretendo também gravar sambas ainda inéditos. Aguardem.



Beth , fale alguma coisa sobre suas incursões pelo mundo afora. Dizem até que você tem busto na Grécia, é isso mesmo?

Beth Carvalho: Foi o que me disseram. É que eu participei em Atenas lá pelos anos 80 de um Festival Mundial da Canção e fizeram uma homenagem aos interpretes que por lá estiveram. Já cantei em vários países, Estados Unidos, Suíça, Japão sempre apresentando o nosso samba. Quem conhece o nosso samba, a nossa cultura popular com as raízes cariocas, claro que gosta.



Mas você também não esquece da Bahia.

Beth Carvalho: Claro que não. Tanto que em 2007 lançamos o DVD-CD Beth Carvalho canta o samba da Bahia com compositores e cantores de lá, das diversas gerações, como, Riachao, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Danilo Caymmi, Carlinhos Brown, Maria Bethânia, Daniela Mercury, Ivete Sangalo e Margareth Menezes, entre outros.

Uma pergunta inevitável que está em pauta neste ano de eleição para a escolha, em outubro, de quem ficará no lugar do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Você já se definiu, vai votar em quem? E por que?

Beth Carvalho: Estou com Dilma e não abro, claro. Ela é uma grande figura e ainda por cima é a candidata do Lula. Para mim ela seguirá o ideário de Vargas, Jango, Brizola e Lula. E também pelo fato de ser mulher, o Brasil terá pela primeira vez em sua história uma presidente mulher. Isso é muito importante e também revolucionário. Ela dará continuidade ao que Lula vem fazendo. Na verdade, o Brasil encontrou o seu caminho, que Dilma Roussef, vai aprofundar. E Dilma, uma grande mulher que resistiu bravamente a ditadura. Conhece o riscado. Merece o nosso voto.
E, como se tudo isso não bastasse, tucanos nunca mais!… Certo?

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Pagina 64, Marco Campanella

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