Terça-feira, 12 de novembro de 2019.
Notícias ››   Imprensa on-line ››  

CIA diz que Brasil tentou liderar Operação Condor

publicada em 28 de abril de 2019
CIA diz que Brasil tentou liderar Operação Condor
Documentos da Agência Central de Inteligência Americana afirmam que plano só não foi concretizado por resistência de outros países que atuaram na repressão


Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo



Uma fonte confiável brasileira descreveu um acordo entre o Brasil e a Argentina por meio do qual os dois países caçam e eliminam terroristas que tentam fugir da Argentina para o Brasil. Unidades militares brasileiras e argentinas estão operando em conjunto e em cada lado da fronteira quando necessário

Concordando em participar e apoiar a operação Condor, Brasil adotou uma postura muito agressiva e tentou usurpar a liderança, ação que não caiu bem entre os demais membros. Como resultado da reação fortemente negativa dos outros membros, o Brasil desde então decidiu permanecer na periferia da organização meramente como observador

As regras do Tratado do Condor

1) CADA PAÍS DARÁ US$ 10 MIL PARA DESPESAS OPERACIONAIS. ESSE FUNDO SERÁ REABASTECIDO EM PARTES IGUAIS EM ATÉ 15 DIAS. CADA PAÍS PAGARÁ AINDA TAXA DE US$ 200 MENSAIS PARA MANTER O CENTRO

2) O CENTRO OPERACIONAL SERÁ EM BUENOS AIRES E ADMINISTRARÁ MATERIAIS E RECURSOS HUMANOS COM COMPLETA LIBERDADE

3) AS EQUIPES DE INTELIGÊNCIA E DE OPERAÇÕES SERÃO FORMADAS POR PESSOAL DOS PAÍSES-MEMBROS. CADA PAÍS-MEMBRO FORNECERÁ UM MÍNIMO DE 4 PESSOAS - EVENTUALMENTE UMA MULHER

4) 
A SELEÇÃO DOS ALVOS: CADA INTEGRANTE FARÁ UMA PROPOSTA. A SELEÇÃO FINAL DO ALVO SERÁ FEITA POR VOTAÇÃO E NA BASE DE MAIORIA SIMPLES. A EXECUÇÃO DO ALVO É DE RESPONSABILIDADE DA EQUIPE OPERACIONAL

OS MEIOS NECESSÁRIOS PARA AS OPERAÇÕES DEVEM SER FORNECIDOS PELO CENTRO OPERACIONAL:

- ARMAS E MUNIÇÃO

- EXPLOSIVOS E ACESSÓRIOS

- DOCUMENTAÇÃO

- ROUPAS E OUTRAS NECESSIDADES

- EQUIPAMENTOS ELETRÔNICOS

- EQUIPAMENTOS DE COMUNICAÇÃO 


5) A SELEÇÃO DOS ALVOS: CADA INTEGRANTE FARÁ UMA PROPOSTA. A SELEÇÃO FINAL DO ALVO SERÁ FEITA POR VOTAÇÃO E NA BASE DE MAIORIA SIMPLES. A EXECUÇÃO DO ALVO É DE RESPONSABILIDADE DA EQUIPE OPERACIONAL



A SELEÇÃO DOS ALVOS: CADA INTEGRANTE FARÁ UMA PROPOSTA. A SELEÇÃO FINAL DO ALVO SERÁ FEITA POR VOTAÇÃO E NA BASE DE MAIORIA SIMPLES. A EXECUÇÃO DO ALVO É DE RESPONSABILIDADE DA EQUIPE OPERACIONAL

OS MEIOS NECESSÁRIOS PARA AS OPERAÇÕES DEVEM SER FORNECIDOS PELO CENTRO OPERACIONAL:

- ARMAS E MUNIÇÃO

- EXPLOSIVOS E ACESSÓRIOS

- DOCUMENTAÇÃO

- ROUPAS E OUTRAS NECESSIDADES

- EQUIPAMENTOS ELETRÔNICOS

- EQUIPAMENTOS DE COMUNICAÇÃO

6) AS COMUNICAÇÕES DEVEM SER FEITAS PELO SISTEMA CONDORTEL E VIA DIPLOMÁTICA. O TREINAMENTO É DE RESPONSABILIDADE DO CENTRO DE OPERAÇÕES. ELE VAI FUNCIONAR DAS 9H30 ÀS 12H30 E DAS 14H30 ÀS 19H30



Fonte
CIA, Argentina Declassification Project - The "Dirty War" (1976-83)

Concordando em participar e apoiar a operação Condor, Brasil adotou uma postura muito agressiva e tentou usurpar a liderança, ação que não caiu bem entre os demais membros. Como resultado da reação fortemente negativa dos outros membros, o Brasil desde então decidiu permanecer na periferia da organização meramente como observador

Documentos da Agência Central de Inteligência Americana (CIA) mostram que o Brasil quis liderar a Operação Condor e só não conseguiu porque enfrentou resistência dos outros países membros – Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia. Os serviços de segurança brasileiros resolveram, então, manter-se “na periferia” da organização criada nos anos 1970 para capturar e assassinar opositores políticos exilados.


Os papéis reproduzem até o acordo que formalizou, em 1976, a repressão conjunta na América do Sul. A CIA sabia ainda, “por uma fonte confiável brasileira”, de “um acordo entre o Brasil e a Argentina para caçar e eliminar terroristas que tentassem fugir da Argentina para o Brasil”. O trato teria sido feito após o golpe de 24 de março de 1976, que pôs no poder, no país vizinho, a junta militar liderada pelo general Jorge Rafael Videla.

O alcance da participação brasileira na Operação Condor sempre foi motivo de polêmica. Fontes militares afirmam que esse papel era de eventual troca de informações e treinamento, a fim de combater grupos subversivos e opositores políticos que agiam nos países da América do Sul. Eventualmente, admitem ter apoiado militares de países vizinhos em operações no País.

“Esses papéis são muito importantes até porque a política do governo brasileiro (Ernesto Geisel) de então não era tão agressiva quanto às da Argentina e do Chile. A ação do Brasil, porém, nessa área internacional é menos conhecida, pois aqui os arquivos militares nunca foram abertos”, disse o historiador Daniel Aarão Reis, da Universidade Federal Fluminense (UFF).


Os documentos americanos dizem que, no entanto, o Brasil chegou a ser membro da operação e não só observador. O Estado procurou o Exército e o questionou sobre os papéis da CIA. Eis a resposta: “Não há nos arquivos do Exército brasileiro documentos e registros sigilosos produzidos entre os anos de 1964 a 1985, tendo em vista que foram destruídos, de acordo com as normas existentes à época”.

Os documentos da CIA fazem parte do Projeto de Desclassificação Argentina (The Dirty War 1976-1983), do governo americano, e incluem mais de 40 mil páginas. Duas dezenas delas fazem menções ao Brasil e a sua participação na Operação Condor. Datada de julho de 1976, uma das primeiras é um relatório sobre “recentes ataques contra esquerdistas exilados na Argentina”.

O texto cita o caso de Edgardo Enríquez, dirigente do Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR, na sigla em espanhol) chileno. Ele foi sequestrado em 10 de abril de 1976, em Buenos Aires, com a brasileira Maria Regina Marcondes Pinto, com quem se encontrara. Enríquez preparava a saída do MIR da Argentina após o golpe. Ele e Maria Regina desapareceram. “Ele foi capturado (pelos argentinos) e, provavelmente, entregue e, subsequentemente, executado pelos chilenos”, diz a CIA. Em seguida, o documento trata do “acordo” entre militares do Brasil e da Argentina para caçar subversivos.

Acordo. Em 16 de agosto de 1977, a CIA arquivou cópia do acordo assinado pelos órgãos de informações dos países da Operação Condor para montar uma estrutura que cuidaria do assassinato de opositores na Europa, a chamada Operação Teseo.

O documento relata que o centro operacional seria em Buenos Aires. Cada país concordou em fornecer agentes (pelo menos quatro) para as equipes de inteligência, que iriam levantar informações sobre os alvos e localizá-los, e para as equipes de operações, que iriam executá-los. Os países depositariam, cada um, US$ 10 mil (cerca de US$ 45 mil atuais) em um fundo para custear a ação e cada agente receberia US$ 3,5 mil para cada dez dias de operação (US$ 15 mil atuais), além de armas, explosivos e equipamentos. Os alvos seriam apresentados pelos países membros e a prioridade de execução seria decidida por votação.

O governo americano ainda não sabia qual a extensão da participação brasileira. Isso é tratado em documento de 28 de dezembro de 1977. Segundo a CIA, o País concordou em participar da operação na reunião de Santiago (Chile) – entre 31 de maio e 2 de junho de 1976. Mas o Brasil teria assumido uma “postura muito agressiva e tentado usurpar a liderança, uma ação que não caiu bem entre os outros membros”. Por isso, diz a CIA, o Brasil decidiu mais tarde ficar “na periferia da organização”.



Paulo Malhães, coronel reformado do Exército, que assumiu ter sumido com o corpo do deputado federal Rubens Paiva Foto: Marcos Arcoverde/Estadão
O País, no entanto, manteve a cooperação por meio das Operações Gringo e Caco, do Centro de Informações do Exército (CIE), para vigiar aqui a ação dos grupos de esquerda argentinos Exército Revolucionário do Povo (ERP) e Montoneros. O CIE infiltrou um agente no ERP em São Paulo. O trabalho era coordenado pelo major Ênio Pimentel da Silveira, o Doutor Ney, que morreu em 1986. “Trabalhei nessa operação em companhia dos argentinos”, contou o tenente Chico, do Destacamento de Operações de Informações (DOI), do 2.º Exército.

No Rio, atuava o coronel Paulo Malhães, que faleceu em 2015. Em 12 de abril de 1979, a CIA relatou a morte do líder montonero Norberto Habegger. “Habegger foi executado entre novembro e dezembro de 1978 por ordem do chefe da Seção de Contrainteligência do Serviço de Informações do Exército (argentino). Ele estava sob custódia desde que foi sequestrado em julho de 1978 no Brasil e levado secretamente à Argentina.” Habegger desembarcara no Rio, vindo do México. Os argentinos contaram com a ajuda do CIE para capturá-lo.
Versão para impressão Envie para um amigo Deixe seu comentário
Estadão

Envie esta notícia para seus amigos

Seu nome:
Seu e-mail:
Enviar para:
envie para vários e-mails separando-os com vírgula

Deixe seu comentário sobre esta notícia

Seu nome:
Seu e-mail:
Escreva seu comentário:
0 caracteres utilizados. Máximo 100 caracteres.

Digite o código contido na imagem ao lado:
Caso não consiga ler o texto da imagem, clique aqui.

Comentários

Nenhum comentário ainda foi registrado.
Seja o primeiro a comentar! Clique aqui ››

Contato

Telefone
(61) 35418388
(61) 93094422