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100 anos de Jango: o Ano Novo aos brasileiros por um Novo Brasil

publicada em 12 de março de 2019
100 anos de Jango: o Ano Novo aos brasileiros por um Novo Brasil
Por Hora do Povo Publicado em 11 de março de 2019





Presidente João Goulart recebe os bicampeões do Mundo, após a vitória no Chile, em 1962; ao seu lado, Garrincha e Pelé (foto: Ag. Nacional)

“Não somos uma nação pobre, desde que descobrimos a imensa riqueza que é a união do povo decidido a libertar-se da pobreza.”


Continuando nossas comemorações do centenário do presidente João Goulart, apresentamos, hoje, ao leitor, dois discursos essenciais para o conhecimento da obra – e do próprio Jango.

Ambos foram mensagens aos brasileiros, pela passagem do ano.

A primeira, no próprio ano em que Jango assumiu o governo – depois da resistência da legalidade e do acordo que redundou no estabelecimento provisório do parlamentarismo.

O segundo, exatamente um ano depois, às vésperas do plebiscito que devolveria os seus poderes constitucionais por ampla maioria: a 6 de janeiro de 1963, o presidencialismo obteve 82% dos votos (9.457.448) contra 17,9% (2.073.082 votos) que preferiram o parlamentarismo.

C.L.

JOÃO GOULART

31 DE DEZEMBRO DE 1961

À véspera de um novo ciclo no correr do tempo, quero dirigir-me a todos vós, meus patrícios, para comunicar-vos algumas reflexões que me sugerem os acontecimentos deste agitado ano que hoje finda, bem como palavras de justificada esperança nos dias que amanhã começaremos a viver.

Este é o grande instante para o desanuviamento dos espíritos, para a conciliação dos corações, para o abandono dos ressentimentos, para o sepultamento dos ódios e das prevenções. Este é o momento de convocar todos quantos sejam ou possam vir a ser úteis à tarefa de contribuir para que o Brasil tenha mais tranquilidade e estabilidade, para prosseguir na jornada pelo destino da Pátria, aperfeiçoando as suas instituições, melhorando as condições de vida de milhões de deserdados, que ainda não se integraram nas belas perspectivas que temos o dever e o direito de almejar para a grande comunidade nacional.

Ao se verificar a renúncia do Presidente Jânio Quadros, obrigava-me o dever, em razão do cargo a que fui elevado pelo voto consciente do povo, a assumir, na plenitude dos poderes constitucionais, a superior magistratura da Nação. Mas, pesando bem as responsabilidades do meu gesto, preferi aceitar a solução que o Congresso Nacional, em seu alto tirocínio, houve por bem consertar em benefício da paz e da fraternidade entre os brasileiros. Foi uma decisão que tomei sem nenhum ressentimento, com a consciência tranquila, na convicção de estar prestando leal colaboração ao País e aos meus irmãos brasileiros.

Posso proclamar que tudo tenho feito no sentido de não criar quaisquer dificuldades ao novo sistema instalado no País. Com a modificação introduzida pelos acontecimentos de agosto, não foram, entretanto, solucionados os verdadeiros problemas nacionais. Antes, evidenciou-se a necessidade de empreender, com lucidez e coragem, as reformas de que carecemos, para ajustar o Estado e o processo administrativo às exigências das necessidades nacionais.

Ninguém mais duvida de como se torna imperioso reformular certos conceitos que entravam o livre desenvolvimento das nossas forças econômicas, constrangem e desfiguram a realidade social, pois exprimem o que não mais existe e não exprimem o que é fato indiscutível.

O clamor público pelas reformas de base indica-nos que atingimos um grau de compreensão da nossa realidade que nos fará criar, com os próprios recursos de inteligência e trabalho, os meios indispensáveis à construção do progresso do nosso País.

Não somos uma nação pobre, desde que descobrimos a imensa riqueza que é a união do povo decidido a libertar-se da pobreza.

Vejo, por isso, com o mais saudável otimismo, o alvorecer deste Ano Novo, que há de trazer-nos a solução de alguns dos problemas que agora nos afligem, pois nele o povo será convocado a escolher os seus representantes no Parlamento, o que equivale à reaproximação com a única fonte de onde deve emanar o poder.

Temos problemas árduos a resolver, mas são precisamente aqueles que decorrem da marcha da nossa evolução econômica e social.

Considerado na perspectiva histórica mais geral, o ano encerrado foi extremamente rico de sucessos e de lições. Progredimos na produção econômica, apesar de persistirem os desequilíbrios que dificultam a ordenação financeira e se exprimem na inflação não dominada.

Contudo, não foi estancado o crescente ingresso da mão-de-obra no mercado do trabalho, o que significa estar a Nação oferecendo meios de existência a parcelas cada vez maiores da população.

Entre outras medidas e providências tomadas no ano que hoje finda, a conversão em lei do plano de desenvolvimento regional do Nordeste constitui notável marco no progresso do desenvolvimento nacional e assenta bases na próxima e definitiva liquidação dos desumanos e inadmissíveis padrões de vida que ainda torturam, ali, milhões de patrícios.

Não cessamos de crescer mesmo nos dias de ansiedade política e de mal-estar social. À medida que nos desenvolvemos, vai-se também ampliando uma consciência de justiça social, com o patriótico objetivo de corrigir desacertos e minorar contrastes que podem ameaçar a harmonia entre os brasileiros.

É preciso que pratiquemos a democracia real, aquela em que o povo, por intermédio de eleições livres, decide de si mesmo e institui em seu exclusivo proveito os termos da convivência social.

Cumpre às classes produtoras compartilhar do esforço coletivo pela ascensão do nível de vida de todos os brasileiros.

O nosso povo é unido, a sua sólida formação crista preserva-o do espírito de ódio e violência. Não deseja o mal de ninguém, mas quer participar — e a isso tem o direito — dos bens que a riqueza nacional já lhe pode proporcionar.

E para todos, pois, que — de coração aberto — neste dia quero apelar. Não é o apelo à tranquilidade dos braços cruzados, à serenidade da imobilização, mas o apelo à confluência dos bons esforços, à harmonia entre opiniões diversas que caracterizam o o processo democrático.

Que cada qual, tendo, lado a lado, o quadro dos seus direitos e dos seus deveres, se disponha, sempre que houver dúvida, a promover a prevalência dos últimos, que a hora é sobretudo dos deveres.

É a hora do apelo aos trabalhadores, para que confiem em que o seu experimentado companheiro de tantas campanhas memoráveis não há de ser, em qualquer emergência, indiferente às suas reivindicações justas e legítimas.

O Presidente da República, para ser fiel ao Brasil e não se tornar impossibilitado de servir aos trabalhadores, precisa, mais do que nunca, da sua colaboração, da sua compreensão, da sua ajuda, enfim, da sua amizade confortadora.

Para isso, basta que os trabalhadores se conservem fiéis à ordem constituída e se revelem imunes às agitações estéreis ou às perturbações dos que pretendem transformar movimentos justos em pretextos para encobrir ambições de natureza ilegítima.

É hora do apelo aos empregadores, aos materialmente mais felizes ou melhor dotados, para que vejam e sintam que não há maneira mais indicada de resguardarem os próprios direitos do que usá-los com visão social e humana, reconhecendo que esses direitos são frutos de uma ordem jurídica que não teria forças para sobreviver sem corrigir a espoliação que sofrem milhões de brasileiros.

Sei perfeitamente que a murmuração cresce em todas as camadas populares, em face do incontrolável e incessante aumento do custo de vida.

Se é forçoso reconhecer que esse indesejável fenômeno pertence à dinâmica do nosso processo econômico, sabemos, por outro lado, que existem meios para conter, dentro de limites aceitáveis, o desvirtuamento do poder de compra.

De todos, é este o mais grave dos problemas que me inquietam. Se não conseguirmos dominar o aumento do custo de vida, de nada valerá tudo o mais que fizermos, pois seremos esmagados pelas consequências dessa fatal enfermidade.

O ano de 1962 deve marcar a concentração dos esforços de todos no combate, permanente e objetivo, ao agravamento do custo de vida, problema fundamental para todos os brasileiros e do qual pode depender a própria sobrevivência das nossas instituições democráticas.

O homem brasileiro quer trabalho condigno, quer terra para plantar, escolas onde estudar, hospitais onde se socorrer, um mínimo de conforto e de satisfação espiritual. Ninguém deverá atuar senão no sentido de lhe oferecer esses bens a que tem direito.

Qualquer decisão política que se oponha a tais finalidades, ou simplesmente ignore a premência da sua satisfação, será considerada antissocial e tornar-se-á responsável pelo incremento da tensão reivindicatória das classes menos favorecidas.

O ano que se inaugura será, sem dúvida, difícil para o Governo, que se vê a braços com situações graves que lhe foram legadas, acrescidas de outras, resultantes de erros acumulados ou causados pela imperfeição da atual máquina administrativa.

Anima-me, porém, uma fé inquebrantável no futuro desta poderosa nação, que encontrará em si mesma, brotando do seu próprio seio, as energias de que necessita para transpor todos os obstáculos.

As ocorrências políticas de agosto [renúncia de Jânio Quadros], que quase precipitaram o País na luta fratricida, tiveram, entretanto, a virtude de demonstrar a perfeita comunhão entre o sentimento do povo e a atuação das Forças Armadas, na defesa, intransigente da legalidade.

Um país que necessita desenvolver-se não se aproxima desse objetivo senão à custa de ingente sacrifício. Superar o subdesenvolvimento não é resultado espontâneo do processo econômico, abandonado a si mesmo. O desenvolvimento exige, ao contrário, planejamento e direção política para fazer-se de forma harmoniosa, consequente, não por surtos locais desencontrados, que agravam as disparidades regionais. Estas só serão eliminadas, pelo desenvolvimento concebido e executado segundo um plano nacional, que corrija os desníveis entre regiões e a todas beneficie por igual.

Não teríamos, no entanto, a visão exata da nossa realidade, se a considerássemos exclusivamente no seu panorama interno, destacando-a do contorno internacional. Também neste cenário, o ano que se extingue foi cheio de acontecimentos significativos, auspiciosos uns, inquietantes outros, que podem trazer, no ano próximo, situações delicadas a que o nosso país terá de fazer frente.

Para nos orientarmos, porém, nas conjunturas que se apresentarem, possuímos o fio de uma tradição de respeito aos direitos de todos os povos, e por eles é que nos deixaremos guiar em qualquer eventualidade.

Somos membros de uma fraternidade de nações latino-americanas que, por enquanto, sofrem, umas um pouco mais que outras, da mesma deplorável condição de subdesenvolvimento econômico, que as irmanam na tarefa comum de levantar o nível de existência das suas populações.

Esta realidade estabelece as condições objetivas de uma política unitária de todas elas. Compreendemos a política de superação do desenvolvimento na perspectiva continental, dispostos a participar de todos os esforços que venham a ser propostos por qualquer membro da nossa comunidade de Nações, visando às ações coletivas que tenham por fim melhorar o nível de vida das populações.

Acredito que, sem vigoroso impulso interno e sem franca e leal colaboração, as nossas nações dificilmente se erguerão, em tempo hábil, do estado de pauperismo em que se encontram.

O Brasil não fugirá aos seus compromissos de nação pacífica, desejosa de manter universais relações de amizade. Ampliamos nossa área de convivência internacional, restabelecendo comunicações com povos cujo regime difere do nosso pela filosofia que o inspira e da qual pessoalmente discordo.

Mas nem por isso deixo de ver como resultado vantajoso o estabelecimento de relações com todos os países, porque o fato significa o alargamento da nossa projeção internacional e novas possibilidades de expansão econômica.

A política exterior do Governo tem obedecido ao princípio inalterável de respeito pela soberania dos outros povos e de salvaguarda da nossa própria independência. Já vai longe o tempo em que o Brasil se podia considerar isento de responsabilidades nas grandes questões internacionais. Somos, hoje, uma das nações democráticas mais populosas e as nossas tradições jurídicas e políticas nos conferem autoridade para levarmos uma ação construtiva ao debate dos grandes problemas do mundo contemporâneo, procurando sempre contribuir, com o melhor dos nossos esforços, para a preservação e o fortalecimento da paz.

Meus patrícios:

Homem simples, homem comum, homem endurecido no combate cotidiano, no contato igual com os humildes, fazendo do diálogo permanente com eles a fonte constante da minha inspiração, a verdade é que o poder não me deslumbra e suas ostentações, longe de me seduzirem, só me trazem constrangimento, e não consigo incluir senão no rol dos meus deveres mais penosos.

Só compreendo o poder como instrumento para o bem coletivo, sujeito, sempre, à revisão e à confirmação das manifestações populares, aos debates e às críticas, democraticamente exercidas, e só o aceito enquanto conduz à realização do seu objetivo justificador.

Mais ligado por uma vivência diuturna aos problemas dos trabalhadores, cujos sofrimentos conheço como se fossem meus e de cujo patriotismo jamais tive motivos para descrer, saberei buscar, no exemplo singular do Presidente Getúlio Vargas, as inspirações para o equilíbrio, que hei de manter no exercício do meu mandato, não, evidentemente, como um indiferente, mas como um árbitro, orientado por sentimentos de equidade e de justiça social, disposto a extrair do diálogo democrático, livremente manifestado, as verdades e as constantes para as decisões que convenham ao Brasil, que é maior do que todos nós, na sua disposição de lutar ede vencer o subdesenvolvimento, a pobreza e a injustiça.

Não tenhamos receio dos dias que iremos atravessar no ano que se inicia, embora eles possam vir marcados por dificuldades e preocupações, pois saberemos vencê-las com espírito de luta e vontade de servir aos altos ideais nacionais.

O ano que ora finda foi agitado, mas de suas horas incertas saímos revigorados na decisão de continuarmos unidos, caminhando firmes para os nossos irrevogáveis objetivos. Nenhum motivo de temor me assalta no instante em que transpomos o limiar de 1962. Com a ajuda de Deus, quero dizer a todos vós, brasileiros das cidades e dos campos, homens e mulheres, jovens e anciões, que nada deterá a marcha desta Nação, marcada pelo signo da grandiosidade nas suas dimensões físicas e no seu destino histórico.

De mim, como seu Presidente, só um apelo constante ouvireis: o apelo à união, à ordem, ao trabalho, à amizade e à paz.

Esta é a mensagem que desejo transmitir-vos e que, estou certo, será recebida com integral consonância em vossos corações.

Quando amanhã, passado o dia festivo, reencetarmos o labor diário, lembremo-nos de que, como povo, devemos trabalhar pelo desenvolvimento nacional, para fruir em paz e em liberdade os bens que produzirmos e para mostrarmo-nos dignos do ideal cristão de fraternidade que nos anima e justifica a nossa vida e a nossa luta.

Brasileiros:

Nesta noite de alegrias e de esperanças, dirijo-me a todos os meus patrícios, de todos os rincões da Pátria, para dizer-lhes que as suas preocupações, as suas dificuldades, ocupam permanentemente o meu pensamento; para dizer-lhes que temos muitas razões para acreditar que, mercê do nosso esforço e do nosso patriotismo, o ano que amanhã se inicia será mais generoso para todos os brasileiros.

Em nome do Brasil, em nome das nossas tradições cristãs, rogo a Deus para que derrame suas bênçãos sobre o bravo povo brasileiro; que conceda, em sua infinita compreensão, as maiores felicidades a cada um dos brasileiros, para que possamos todos, irmanados no mesmo ideal, lutar pela grandeza da Pátria comum, cujos altos destinos haveremos de construir com o nosso trabalho e a nossa fé, a fim de torná-la cada vez mais forte, mais justa e mais independente.

Que Deus faça de 1962 o ano da paz e da concórdia para a grande família brasileira.

31 DE DEZEMBRO DE 1962

Brasileiros:

O nascer de um novo ano é sempre para todos nós o nascer de novas esperanças. Quero partilhar de vossas alegrias e de vossos anseios e trazer-vos minha palavra de confiança nos destinos do Brasil.

Estou consciente das dificuldades que atravessamos. Nada, porém, justifica o desânimo ou o pessimismo.

Já superamos momentos mais difíceis e, na realidade, vivemos em um país com excepcionais condições de crescimento, que tem sabido resistir a graves crises e, apesar delas, tem podido registrar sucessivas conquistas no plano econômico, no plano cultural, no plano social, e, sobretudo, tem podido fazê-lo preservando sempre as instituições democráticas.

O povo brasileiro já realizou grandes e admiráveis tarefas na construção de seu destino. A integração do nosso imenso território, no qual edificamos uma civilização nova, fundada nos valores cristãos, herdados dos nossos antepassados; a unidade da fé, da língua e dos sentimentos em que se reflete a imagem da Pátria, una e indivisível; o extraordinário trabalho realizado na conquista e no domínio do espaço físico, em que plantamos lavouras e indústrias, abrimos estradas e edificamos cidades; o gênio do povo brasileiro, receptivo às mudanças e transformações reclamadas pelo desenvolvimento do País — tudo isto retempera a nossa fé, a nossa confiança no futuro do Brasil.

O ano de 1963, com a manifestação soberana do povo nas urnas, marcará o fim da crise institucional desencadeada pelos acontecimentos de agosto de 1961.

Não temo novos encargos, por mais pesados que sejam. Antes os aceito como um dever para com o povo brasileiro. E não os temo porque sei que contarei com a compreensão e o apoio de todos os brasileiros de boa vontade, maioria esmagadora da Nação, e, ainda, com a colaboração patriótica do Congresso e do Poder Judiciário, nos limites harmônicos e independentes de suas atribuições constitucionais.

Minha mensagem — repito — é de confiança no Brasil. Contamos com possibilidades concretas para ordenar a economia nacional e melhorar as condições de vida do nosso povo. Dispomos dos fatores essenciais para que os brasileiros possam aumentar a riqueza nacional e distribuí-la de um modo mais justo.

O esforço que a Nação realizou após a Segunda Guerra Mundial érealmente extraordinário. Erguemos um grande parque de indústrias de base e expandimos as fontes de energia, enquanto a rede de estradas, cortando o território nacional, transformava as terras, de simples bens geográficos, em bens econômicos.

O produto nacional passou a crescer à elevada taxa de 7% ao ano, índice só comparável aos da fase de recuperação das grandes potências no esforço do pós-guerra.

Já não somos uma nação subdesenvolvida. Atingimos o estádio de pré-desenvolvimento.

Se os dados reais da atualidade brasileira inspiram esta confiança no futuro, não quero e não devo fugir à verificação de que tem sido muito alto o preço pago pelo povo, nestes últimos anos, para manter o ritmo do desenvolvimento nacional.

É sobre o povo que mais pesam os efeitos do processo inflacionário. São os assalariados, obrigados a manter seus orçamentos domésticos nos estreitos limites de vencimentos fixos, os que maiores privações sofrem nestes tempos de dificuldades econômicas e financeiras.

A preocupação fundamental do Governo, daqui para a frente, será a contenção progressiva do processo inflacionário, até reduzi-lo a taxas compatíveis com a preservação da segurança e com a aceleração do desenvolvimento.

Na situação a que chegamos, quase todos contribuem, através das distorções de suas atividades, para fomentar e acelerar a inflação.

Contribui para esse efeito a União, multiplicando despesas e investimentos para cuja cobertura não dispõe de outro modo senão a emissão de papel-moeda, inclusive socorrendo orçamentos estaduais, cada vez mais deficitários.

Também contribuem para agravar a situação as classes produtoras, aumentando preços, para resguardo da elevação de custos futuros, ou investindo reservas sem critérios seletivos.

E ainda, em grau menor, também contribuem para o fomento do processo inflacionário certas reivindicações que, formuladas sem o justo anteparo de uma política salarial, se transformam em novas dificuldades para o povo, logo que seus efeitos são incorporados aos custos e traduzidos, portanto, em novas elevações de preços.

Na análise da experiência dos últimos anos, foi possível fixar erros e equívocos que não podem nem devem ser repetidos.

O plano de Governo, que acaba de ser elaborado e que nos propomos executar, baseou-se no levantamento rigoroso do orçamento público em cada exercício financeiro do próximo triênio.

Foram previstas não apenas as receitas tributárias, como também as disponibilidades de financiamento do Estado e de captação da poupança popular. Simultaneamente, foram fixados os objetivos a serem atingidos em todos os setores básicos da economia, visando a garantir o crescimento anual de 7% do produto nacional bruto, mediante a manutenção da atual taxa de investimento.

Será preservada a participação da iniciativa privada nos investimentos totais do País, para o que o Governo utilizará a sua capacidade de financiamento, desdobrando-a, inclusive, para facilitar as vendas dos produtos de nossas indústrias básicas.

O aspecto mais importante dessa programação está na circunstância de que o Governo agirá de forma consciente e coordenada em todos os seus planos de atividade econômica, dando plena utilização ao potencial de produção nacional e evitando as distorções inflacionárias.

Além disso, serão mantidos rigidamente os limites totais de inversões, gastos de custeio e financiamentos do poder público até 1965.

Todo esse esforço de ação planejada permitirá que o Governo brasileiro, pela primeira vez, possa prever e fixar o limite das emissões e, consequentemente, controlar e reduzir o ritmo da inflação.

A taxa de inflação deverá cair substancialmente, sem que isso venha a prejudicar a ocupação da capacidade produtiva do País.

Os investimentos planejados para o conjunto da economia, durante o próximo triênio, situam-se em torno de três trilhões e meio de cruzeiros, aos preços de 1962. Esses investimentos permitirão que se eleve a renda per capita. Durante esses três anos, a produção agrícola deverá aumentar em redor de 20%, e asseguro que não lhe faltarão o apoio e o estímulo do Governo. O crescimento da produção industrial previsto é de mais de 37%, ou seja, mais de 12% anualmente.

Ao fim do meu governo, a indústria estará contribuindo com mais de 70% dos bens de capital de que necessita a economia nacional para manter sua elevada taxa de crescimento. A produção de aço será quase duplicada. A de tratores, automóveis e caminhões atingirá cerca do dobro da atual produção desta vitoriosa indústria nacional. A capacidade instalada geradora de energia elétrica, tão fundamental ao nosso desenvolvimento, crescerá de 4.751.000 kw, em 1961, para 7.432.000 kw, em 1965.

Para consolidar e ampliar as perspectivas desse resultado, em termos de interesse da Nação, serão necessárias reformas básicas nas estruturas administrativa, econômica e social do País. A efetivação dessas reformas não deverá ser improvisada, porque, debatida por todas as classes, deverá refletir a vontade dos diversos grupos nacionais, sem esquecer a verdade preliminar de que o beneficiário do desenvolvimento há de ser sempre o povo.

Ao lado dessas providências, teremos presente o fator humano, com o Plano Nacional de Educação e Saúde, que dará acesso a todos os brasileiros às fontes da instrução e da cultura, em condições físicas que lhes permitirão elevar a riqueza nacional e obter maior participação em seus benefícios.

Este é o quadro das medidas que pensamos realizar a partir do próximo ano, no sentido de reorganizar a vida nacional e, assim, caminhar com segurança para a estabilização econômica e social do País e, consequentemente, para a melhoria que se faz imperiosa e urgente das condições de vida do nosso povo.

Para tão grandiosa tarefa, que deve ser acima de tudo o fruto do nosso próprio esforço e da utilização dos recursos internos já consideráveis, acolheremos com satisfação, dando-lhes estímulo e segurança, o capital e a técnica que venham de fora, animados do leal propósito de participar da nossa luta pelo desenvolvimento do País.

O plano do Governo será amplamente divulgado para que todos possam contribuir, através de suas entidades representativas e lideranças, com sugestões e críticas, de modo a possibilitar o aperfeiçoamento das medidas e providências que o tornarão o instrumento adequado à solução dos problemas que preocupam o País.

É imprescindível que o povo tenha completo conhecimento dos objetivos que nos propomos alcançar nos próximos três anos, pois só assim poderá transformar em força atuante e invencível o que se pretende realizar em seu próprio benefício.

Brasileiros:

Nação independente, na plenitude da consciência de sua soberania, o Brasil, fiel à sua tradição de luta pela preservação da paz, pela intangibilidade da autodeterminação dos povos e pelo respeito às normas da convivência internacional, base dos princípios que constituem os melhores legados de sua formação histórica, reflete, acima de tudo, na sua política externa, o profundo sentido democrático e as legítimas aspirações de desenvolvimento econômico do seu povo.

A ninguém é lícito duvidar de nossa lealdade a esses ideais e aos compromissos que livremente assumimos. Estou plenamente convencido de que esses valores subsistirão, fortalecidos pela prática da democracia, realizando não só os anseios de liberdade, como a justiça social e o bom entendimento internacional.

As nossas dificuldades são perfeitamente sanáveis no plano interno e externo. Temos o direito de afirmar aos brasileiros que devemos confiar em nossa vitalidade e de esperar que os países com os quais convivemos também reconheçam as nossas reais possibilidades.

Brasileiros:

Se fomos capazes de resistir, superando-as sem nunca termos recorrido à violência ou a medidas de exceção, a crises como as que marcaram os últimos meses de 1961 e o ano de 1962, aprofundadas ainda, em determinado instante, por grave ameaça à paz mundial; se fomos capazes, em meio a uma sequência de crises institucionais, de promover eleições que se caracterizaram pela liberdade e pelo respeito à vontade popular, e, ainda, de elaborar um programa objetivo, para enfrentar as dificuldades que se nos antepõem — podemos afirmar, como o faço agora, que seremos também capazes de tornar realidade o programa de trabalho traçado para os próximos três anos.

Temos sólidas razões para ser otimistas. Maior nação do continente latino-americano, o Brasil possui força econômica e riquezas que precisam ser dinamizadas em benefício de todos.

Um povo que tem enfrentado e vencido tantas dificuldades; um povo que tem sabido garantir, com sua vigilância patriótica, a sobrevivência dos postulados legais; um povo cioso de seus direitos democráticos; um povo que vem suportando, com irreprimível denodo, os sofrimentos impostos pelas contingências do abastecimento; um povo que conta com suas Forças Armadas, de intransigente lealdade aos seus anseios e sempre vigilantes na defesa dos altos interesses nacionais; um povo assim, que não recua, que não desespera, que não se deixa abater, é um povo que pode aguardar, com justificada confiança e com tranquila altivez, o despontar de uma nova aurora de paz, de ordem, de prosperidade e de justiça social.

Brasileiros:

A todos os meus compatriotas, aos homens de empresa, aos trabalhadores do campo e da cidade, e às suas famílias, desejo, neste começo de ano, todas as felicidades.

Unamo-nos todos. O destino da Pátria constitui um grandioso desafio, que nos convoca ao cumprimento do dever.

Conjuguemos fraternalmente nossos esforços, rogando a Deus que nos inspire no trabalho pela prosperidade, pela paz da família brasileira e pelo futuro grandioso do Brasil.
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