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A 'vaca fardada'.

publicada em 10 de fevereiro de 2019
A 'vaca fardada'
Zarcillo Barbosa







A deputada catarinense, ex-prefeita de Bombinhas, conseguiu projeção nacional ao tomar posse com um macacão vermelho, que faria sucesso em qualquer balada. Bombástico foi o decote generoso. Chegava ao umbigo. Bombardeada pelas redes sociais pelo desrespeito, Ana Paula da Silva (PDT), 43 anos, quer processar seus detratores. Outro que não deu a mínima para a "liturgia do cargo", foi o deputado estadual goiano Amauri Ribeiro (PRP). Compareceu à concorrida cerimônia de posse com o chapelão de vaqueiro enterrado até as orelhas. Faltou cadeira para a esposa e ele não teve dúvidas em acomodá-la em seu colo.

Os livros de história estão lotados de acontecimentos folclóricos ou engraçados envolvendo figurões do Império e da República. No tempo da ditadura militar, o humorista Stanislaw Ponte Preta, escreveu três volumes com episódios acontecidos nos primeiros anos de exceção. Deu ao livro o nome de "Febeapá" (Festival de Besteiras que Assola o País). Se vivesse nos tempos de hoje, daria para editar uma enciclopédia. Conta-se que em 1964, quando estava em andamento a conspiração civil e militar para depor João Goulart, o golpe planejado corria o risco de se frustrar. Problemas políticos. Foi quando o general Olympio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, em Juiz de Fora, decidiu por conta própria pôr a tropa a caminho do Rio de Janeiro, distante 180 quilômetros. A partir daí os demais comandantes tomaram coragem e também se rebelaram. Vitorioso o golpe, perguntaram a Mourão sobre a ação precipitada. Ele respondeu com a frase que ficaria famosa: "Em matéria de política sou uma vaca fardada. Se de acordo com minha consciência estou certo, quem quiser que me siga". Hoje, temos outro general Mourão, o Hamilton, vice-presidente, no qual os bolsonaristas vislumbram camufladas intenções de golpismo. Ele não é nenhuma "vaca fardada" - já está na reserva e conhece política. Mesmo assim, Olavo de Carvalho já o chamou nas redes sociais de "charlatão desprezível". Logo no primeiro mês de governo, a relação do presidente com o seu vice rende teorias conspiratórias. Dizia Tancredo Neves que vice e titular foram criados para se atritarem. Ninguém escapa dessa sina. O problema é que a intriga começa a desbordar. Olavo de Carvalho, ex-astrólogo e filósofo chegou a perguntar: "Estaria o Mourão planejando livrar-se do Bolsonaro e usar a eleição dele como mera camuflagem para dar ares de legalidade eleitoral a um golpe militar? " Enquanto a resposta não surge, Bolsonaro se segura do hospital. Despacha com assessores munidos de máscaras cirúrgicas para evitar que o contaminem. Melhor cuidar do que é seu, ainda que da cama, do que dar oportunidade a quem defende posições contrárias.

Fora da política, também temos ótimos personagens. O ator José de Abreu, em delírio, vaticinou que teremos "um governo repressor, cuja eleição foi decidida numa facada elaborada pelo Mossad, com o apoio do Hospital Albert Einstein". O hospital o está processando. Roberto Requião, comparou, quando da chegada da missão israelense para ajudar nas buscas em Brumadinho: "Este grupo de 140 soldados e 16 toneladas de equipamento mais parece um grupo de assalto à Venezuela". Há outra teoria conspiratória em curso - a de acabar com a Operação Lava Jato. Os processos abertos já seriam suficientes. A Justiça, segundo os conspiradores, estaria paralisada, patinando num só assunto e até prejudicando o país. Melhor fazer como o Padre Cicero (1926), que preferiu começar vida nova no Cariri: "Meus amiguinhos, quem matou não mate mais. Quem roubou não roube mais. Quem pecou não peque mais. Os amancebados que se casem". Estaria nas novas edições do Febeapá o ministro da Casa Civil Onyx Lorenzoni, para quem uma arma em casa oferece o mesmo risco de um liquidificador. Vitamina de abacate, só com porte de eletrodoméstico emitido pela PF.

O Oscar da curta temporada vai para o ministro da Educação Ricardo Vélez Rodrigues, em defesa da volta da disciplina Educação Moral e Cívica. "Liberdade não é a que pregava Cazuza, que dizia que liberdade é passar a mão (na bunda) do guarda". A frade tem autoria anônima e foi aproveitada pelo grupo humorístico Casseta & Planeta em 1980. Nada a ver com o compositor. Ainda em sua entrevista, o ministro Vélez acrescentou: "Brasileiro viajando é um canibal (sic). Rouba coisas nos hotéis, rouba assento salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo. Isso é o tipo de coisa que tem que ser revertido na escola". A frase é "imexível", defenderia o ministro Antonio Magri, do tempo de Collor: "Tem que se pensar muito sobre ela nos momentos de solidez".

O autor é jornalista e articulista do JC.
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Zarcillo Barbosa , https://www.jcnet.com.br

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