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Mourão: um vice intrigante

publicada em 06 de fevereiro de 2019
Mourão: um vice intrigante
POLÍTICA
POR ANDRÉ BARROCAL









O general vice-presidente constrói liderança própria e conspira contra os ministros da Casa Civil e das Relações Exteriores
Reaberto após as férias, o Congresso será uma incógnita para o governo. É verdade que a direitona avançou, liderada pelo PSL, a sigla de Jair Bolsonaro, e que, para variar, os patrões, bolsonaristas de vuvuzela e pompom na eleição, são a maior bancada.
De cada dez parlamentares, porém, cinco são caras novas, a maior renovação desde 1990. A fragmentação dá o tom: 30 partidos com deputado ou senador, um recorde, dez a mais do que a média de 1994 a 2010. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, do DEM, e o do Senado, o obscuro Davi Alcolumbre, emocionam-se com o neoliberalismo do ministro da Economia, Paulo Guedes, mas isso não garante uma vida fácil do governo no Congresso.

Nos subterrâneos, a velha política inquieta-se em silêncio, mal-humorada com a montagem de um ministério sem “toma lá dá cá”. E tem ainda o caso do senador Flávio Bolsonaro e seus elos sombrios com uma milícia barra-pesada do Rio de Janeiro.


Mas o Congresso não é o único mistério em Brasília para o presidente. Seu vice também é. Com um mês de governo, o general aposentado Antonio Hamilton Mourão coleciona frases e gestos intrigantes. Dá a sensação de querer domar o bolsonarismo. De tentar mostrar-se mais equilibrado do que o ex-capitão que um dia Mourão (é o que conta uma velha conhecida do general) teve de botar para fora de uma dependência militar no Rio por Bolsonaro ter entrado ali com um carro cheio de adesivos de candidato.

Bem que, em dezembro, um general da reserva dizia a CartaCapital: “O Mourão tem formação na inteligência. Ele fala as coisas, é o jeito dele. O Bolsonaro tem de dar alguma missão para ele na Vice-Presidência, senão vai ter problema. O Mourão vai criar uma liderança paralela”. Uma liderança capaz de conspirar contra o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, chefe da articulação política do Planalto e das relações do governo com o Congresso.

Palavras e gestos
Antes da conspirata, vejamos frases e gestos. Quando assumiu o poder pela primeira vez, por causa da viagem de Bolsonaro a Davos, na Suíça, Mourão deu entrevista sem um pingo de entusiasmo ao comentar o decreto presidencial facilitador da posse de armas.

Para ele, puro marketing. “Não vejo como uma questão de medida de combate à violência. Vejo apenas, única e exclusivamente, como atendimento de promessa de campanha do presidente e que vai ao encontro dos anseios de grande parte do eleitorado dele.”

A propósito, com Bolsonaro em Davos, Mourão baixou um decreto que é um enorme retrocesso na transparência pública. Agora não é só ministro ou alto dirigente de órgão público que pode classificar um documento de ultrassecreto ou secreto. O carimbo, que garante sigilo de 25 anos e 15 anos, respectivamente, poderá ser dado por cerca de 1,2 mil ocupantes de cargos de confiança.

“São os militares, e possivelmente o Itamaraty, indo à forra, porque a Lei de Acesso à Informação atrapalhou a vida deles”, diz uma ex-autoridade da Casa Civil.

Ao falar da Venezuela recentemente, Mourão foi na contramão das maquinações do chanceler Ernesto Araújo para derrubar Nicolás Maduro, sonho da família Bolsonaro. “O Brasil não participa de intervenção, não é da nossa política externa intervir nos assuntos internos de outros países.”

No dia da morte do irmão mais velho do ex-presidente Lula, 29 de janeiro, o vice defendeu que o prisioneiro pudesse ir ao enterro. “É uma questão humanitária, não é? A gente perder um irmão sempre é uma coisa triste. Eu já perdi o meu e sei como é.”

Olavo
Bolsonaro não se pronunciou, estava no hospital pós-cirurgia, mas adora esculhambar Lula, chamá-lo de cachaceiro. Uns dias antes da morte de Vavá, Jean Wyllys anunciou que não assumiria um novo mandato de deputado pelo PSOL do Rio, devido a ameaças. Bolsonaro comemorou: “Grande dia!”, escreveu no Twitter. E Mourão? “Quem ameaça parlamentar está cometendo um crime contra a democracia.”

Registre-se que Mourão não é exatamente um homem de causas populares, é da turma dos preconceitos. Na eleição, chamou o 13° salário de “mochila nas costas” dos empresários, motivo para Bolsonaro mandá-lo ficar quieto, por falta de “malícia” política.

O general acha que o brasileiro herdou a “indolência” dos indígenas e a “malandragem” dos negros. Na véspera do primeiro turno, estava cercado por jornalistas, apontou um parente e comentou: “Meu neto é um cara bonito, viu ali? Branqueamento da raça”.

Guru e ideólogo do bolsonarismo, o “filósofo” Olavo de Carvalho ficou indignado com o comentário de Mourão sobre Wyllys. Em um vídeo no YouTube em que critica as Forças Armadas por permitirem (delírio dele) o avanço do comunismo no Brasil, disse ter sofrido muito mais ameaças na vida do que o psolista.


Lembrou que Bolsonaro foi esfaqueado. “Isso não é um perigo para a democracia, general?” E tascou: “Mourão, você não tem vergonha de puxar o saco desse Jean Wyllys e nada fazer em minha defesa?” Aproveitou para atacar outro general de pijama por “falta de vergonha”, Augusto Heleno, o ministro da Inteligência do Planalto.

O motivo? Heleno jamais poderia dizer-se “honrado” no meio de jornalistas “difamadores do presidente”, segundo Carvalho. A “honra” foi uma entrevista à GloboNews em 3 de janeiro. Curiosidade: o general que achava que Mourão construiria uma liderança paralela acredita que Heleno, o planejador-chefe da campanha de Bolsonaro, é o único capaz de “segurar” o vice.

A mídia é tida como adversária por Bolsonaro e seus filhos. O clã adora bater na imprensa.

Olavo de Carvalho, o guru da turma, considera os jornalistas “inimigos do povo”.

Pois Mourão tem sido para lá de cordato com os “inimigos”. Atende facilmente pedidos de entrevista e de bate-papo. Mais, bota os encontros na agenda pública. Veja, Estadão, Folha, Globo, Record e Correio Braziliense já estiveram nela.

As portas de sua sala têm estado abertas a quem queira reclamar do governo. Os frequentadores do gabinete de Mourão – empresários, diplomatas – têm dois alvos favoritos. Os ministros Ernesto Araújo e Onyx Lorenzoni (Casa Civil). O primeiro, por ser lunático e uma ameaça à imagem e às exportações do País. O outro, por não estar à altura da missão de comandar a relação do governo com o Congresso.

Há pistas de que o vice conspira contra ambos, sobretudo Lorenzoni. Em uma reunião recente no Planalto com representantes de endinheirados, não perdia a chance de falar mal do colega palaciano. Acha Lorenzoni fraco. “A minha preocupação no governo é a articulação política”, teria dito, no relato de uma testemunha.

Alvos principais
Um funcionário do Planalto que, por dever de ofício, frequenta a Casa Civil contou coisa parecida a CartaCapital. Ele não tem dúvida da existência de um complô de Mourão contra Lorenzoni. Conciliábulo que juntaria ainda o secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebbiano, e o chefe do Jurídico do Planalto, Jorge Antonio de Oliveira Francisco.

“Os três querem derrubar o Onix, já vejo ações concretas nesse sentido. Acham que ele não dá conta do trabalho”, diz o funcionário. O discreto Bebbiano teria, de fato, a ganhar com a queda de Lorenzoni. Comandou o PSL, partido bolsonarista, em 2018, foi o responsável por montar os palanques estaduais que ajudaram a eleger Bolsonaro. Há quem diga que sua missão agora é preparar o avanço do PSL no País por meio das eleições municipais de 2020, tarefa para ser tocada desde já, por meio do Congresso.


BOLSONARO E MAIA, NEOAMIGOS (FOTO: ABR)

Será que a notícia de que Rossell Mourão, filho do vice-presidente, triplicou o salário no Banco do Brasil com uma semana de governo é capítulo de uma luta intestina? O general culpa Lorenzoni por ter circulado na mídia a informação. Foi o que Mourão disse a uma pessoa há alguns dias.

O noticiário não é lá muito favorável a Lorenzoni. Desde dezembro, ele está na mira de uma investigação da PGR por dinheiro de caixa 2 da JBS/Friboi. No dia que Rossell foi para a berlinda, soube-se que Lorenzoni contratou no passado, com verba da Câmara, a firma de um amigo e que esta aparentemente só existia para servir o deputado.

O ministro acaba de nomear como assessor especial um acusado de extorsão. Laudívio Carvalho, deputado em fim de mandato pelo Podemos de Minas Gerais, tomaria parte do salário de servidores, um deles queria contar à Justiça que o chefe admitia funcionário fantasma e teria sido ameaçado.

Outra nomeação problemática de Lorenzoni foi a do deputado mineiro Leonardo Quintão, do MDB. Quintão é uma espécie de lobista de mineradoras, empresas queimadíssimas na opinião pública, após o desastre de Brumadinho.


Quando Dilma Rousseff fez de Michel Temer seu articulador político, em abril de 2015, o emedebista deixou Quintão indicar quem quisesse para a direção do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), tanto em Brasília quanto em Minas.

Articulações
Na Casa Civil, a missão de Quintão é lidar com o Senado. O que em si já era uma escolha pouco sábia, pois o sujeito é deputado e nada acrescentaria a Lorenzoni, outro que só foi deputado na vida. Em uma de suas primeiras grandes missões, a eleição para a presidência do Senado, Quintão foi porta-voz, em meados de janeiro, de uma má ideia de Lorenzoni. O ministro queria derrotar Renan Calheiros na eleição de 1o de fevereiro e achou que seria mais fácil se a também emedebista Simone Tebet saísse do páreo. A senadora ficou publicamente fula com a proposta.

O candidato do coração de Lorenzoni era Davi Alcolumbre, comerciante eleito por Tocantins que teve um chilique em seu gabinete ao saber que o nome de Mourão tinha sido usado em defesa da candidatura de Fernando Collor à presidência do Senado. Uma mão lava a outra? A esposa do ministro, Denise Veberling, é funcionária de Alcolumbre, com salário de 8,6 mil.

Além de a operação “fora Simone” ter dado errado, ofereceu de bandeja a Calheiros um motivo para querer a cabeça de Lorenzoni, caso o emedebista fosse eleito de novo para comandar o Senado. Não surpreende que, na antevéspera da eleição, Quintão tenha sido rebaixado na Casa Civil e substituído, na interação com o Senado, pelo senador em fim de mandato Paulo Bauer, do PSDB de Santa Catarina, derrotado na reeleição de 2018.

Não é de agora que Mourão se tornou uma espécie de ouvidor de queixas contra o bolsonarismo. É assim desde a eleição. Foi ele quem recebeu, em fins de setembro, um recado do mundo árabe de que haveria troco caso Bolsonaro, se eleito, reconhecesse Jerusalém como capital de Israel e mudasse para lá a embaixada brasileira.

A retaliação seria cortar as importações de carne por países do Oriente Médio. Um aviso transmitido a Mourão, a pedido de embaixadas árabes, pelo secretário de Assuntos Estratégicos do governo Michel Temer, Hussein Kalout, de origem árabe como o emedebista. Os diplomatas árabes queriam falar diretamente com Bolsonaro, mas simplesmente não conseguiam.

Uma penca de embaixadores estrangeiros passou pelo gabinete de Mourão em janeiro: Argentina, República Dominicana, Bélgica, Holanda, Espanha, Ucrânia, Chile. O último deles foi Ibrahim Alzeben, da Palestina, nação com interesse direto nos rumos de Jerusalém, objeto de seus sonhos também. Como tem interesse no futuro de sua própria embaixada em Brasília.

Em novembro, antes assumir, Bolsonaro defendeu, por alegadas razões de segurança, tomar o terreno da embaixada da Palestina em Brasília, doado pelo governo Lula em 2010 (em troca de um terreno em Ramallah, a capital palestina), cujo prédio foi inaugurado por Dilma em 2016.

Após a conversa com Mourão, na segunda-feira 28, Alzeben disse que mudar a embaixada do Brasil de Tel-Aviv para Jerusalém “seria danoso para israelenses, para palestinos, para o Brasil, para o mundo inteiro, para a paz. Assim que… não vai acontecer, esperamos que não vá acontecer”.


O MINISTRO DA CASA CIVIL QUE SE CUIDE (FOTO: ABR)

“A resposta que eu dei para eles é uma resposta de Estado, né?”, comentou Mourão em seguida. “O Estado brasileiro, por enquanto, não está pensando em nenhuma mudança de embaixada.”

Ah, não? Em novembro, Eduardo Bolsonaro, o caçula do presidente que é metido a chanceler paralelo do pai, foi aos Estados Unidos namorar o governo Donald Trump, outro pró-sionista, e declarou que a decisão de transferir a embaixada estava tomada. “A questão não é perguntar se vai, a questão é perguntar quando será.”

No Itamaraty, até diplomata ultraconservador concorda que há risco demais numa transferência, de atrair a ira do árabe. É a visão de Achilles Zaluar Neto, embaixador na Síria até o ano passado, um sujeito sondado pelo chanceler Araújo para ocupar algum cargo importante, mas que estava ressabiado.

Araújo é um dos alvos prediletos do pessoal que vai a Mourão chorar as pitangas. Ele “expõe o Brasil ao ridículo”, segundo um escritor norte-americano agraciado no governo Temer com uma medalha da “diplomacia cultural”, por dizer certos absurdos, como a de que existe uma conspiração comunista por trás da globalização.

Mourão diverte-se. “Com louco, a gente dá corda para se enforcar”, disse dias atrás a um interlocutor, ao conversar sobre Araújo.

Gente do PIB que vai se queixar de Bolsonaro para Mourão, preocupada com grana, com a perda de mercados no exterior. Robson Braga, da Confederação Nacional da Indústria, setor que ficou sem um ministério para chamar de seu, já foi ao general. Idem para Marco Polo de Mello Lopes, do Instituto Aço Brasil, setor que olha com atenção a guerra comercial declarada por Trump contra a China.

Para Mourão, o Brasil não tem motivo para atritos com o gigante do Leste, confronto cultivado por Bolsonaro no embalo do trumpismo e da direita radical americana. Em Davos, o chanceler Araújo discursou em favor de mudanças nas regras da OMC prejudiciais à China.

“Uma briga com a China não é uma boa briga, certo? Tenho certeza absoluta de que nós não vamos brigar –34% das nossas exportações são para a China. Não podemos fechar esse caminho, pois tem outros loucos para chegarem nele.” Palavras de Mourão à Folha em 23 de novembro.

Cinco dias depois, o vereador Carlos Bolsonaro, um dos filhos do presidente, foi enigmático no Twitter. “A morte de Jair Bolsonaro não interessa somente aos inimigos declarados, mas também aos que estão muito perto. Principalmente após a sua posse! É fácil mapear uma pessoa transparente e voluntariosa. Sempre fiz minha parte exaustivamente. Pensem e entendam todo o enredo diário!” Estranho. Seria uma suspeita de que Mourão teria planos de bancar Michel Temer e conspirar contra o colega de chapa?

A situação de outro filho do presidente, Flávio, também levanta indagações sobre Mourão. O general acha que Fabrício Queiroz, o nebuloso amigo do clã Bolsonaro e de milicianos que movimentou uma grana preta, precisa explicar a origem de sua bolada. Compra e venda de carro, disse um pouco convincente Queiroz.

O governo, aliás, estuda acabar com a obrigação de o Coaf vigiar as movimentações de familiares de agentes públicos. Flávio insiste que é perseguido pelo Ministério Público. Ele acionou o Conselho Nacional do Ministério Público contra o chefe do MP do Rio. Eduardo Gussem, segundo advogados de Flávio, teve um encontro escondido com um jornalista da Globo em um restaurante no Rio, para passar informações sigilosas sobre o caso Flávio-Queiroz.

Por isso e por outras, deveria ser proibido de mexer no caso. O processo no CNMP caiu com o conselheiro Luiz Bandeira de Mello Filho. Que é um indicado de Renan Calheiros, senador que paparicou Flávio, a fim de quebrar resistências no bolsonarismo e chegar mais facilmente ao comando do Senado. Calheiros é tido por procuradores como alvo número 1 da Operação Lava Jato, daí o empenho dele em dirigir de novo o Senado. Ter poder para se blindar.

Na Câmara, a reeleição de Rodrigo Maia parecia favas contadas. Para Mourão, o deputado era um “bom nome”. Jair Bolsonaro jamais falou algo parecido. Tenho a “melhor expectativa possível” sobre o novo Congresso, disse o general, “houve uma renovação grande. Acreditamos que a força dos novos vai favorecer o entendimento pelo Congresso das responsabilidades que tem perante o Brasil”.

E aí, presidente Bolsonaro, dá para confiar no Congresso? E no Mourão?
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Carta Capital

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