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Morre Chicão, líder camponês com atuação em Minas

publicada em 09 de janeiro de 2019
Morre Chicão, líder camponês com atuação em Minas



Personagem ilustre da recente história política do país tinha 88 anos incompletos; ele estava hospitalizado após sofrer aneurisma cerebral





VICTOR ALMEIDA
Morreu nesta terça-feira (8), em Anápolis (GO), onde morava havia alguns anos, o líder camponês Francisco Raymundo da Paixão, o Chicão, que em 1964 assombrou com seu movimento de trabalhadores sem-terra a estrutura feudal do latifúndio na região do Rio Doce, dias antes do golpe de Estado que derrubou o presidente João Goulart, o Jango, e que instaurou no país um regime de exceção que durou 21 anos.

Chicão tinha 88 anos incompletos e foi vítima de um aneurisma cerebral que o deixou recolhido ao hospital durante alguns dias. De madrugada, morreu ao lado de sua companheira, Nelly, e de seu filho, Luiz Carlos, tendo sido sepultado, às 17h, em Abadiânia, também em Goiás.

Chicão é um personagem importante da recente história política do Brasil. É citado por Zuenir Ventura em seu best-seller “1968: O Ano que Não Terminou” e está inteiro no livro “Nas Terras do Rio Sem Dono”, do jornalista Carlos Olavo da Cunha Pereira, também protagonista dos acontecimentos em Governador Valadares (MG) que desencadearam o golpe contra Jango. Carlos Olavo era o editor de “O Combate”, jornal que dava cobertura ao movimento dos camponeses que lutavam pela reforma agrária.

Em 1964, Chicão, no Rio Doce, e o deputado Francisco Julião, no Nordeste, lideravam o movimento pela reforma agrária no Brasil. Entre outros destinos, os retirantes do Nordeste desciam para o Sul e se assentavam nas terras férteis às margens do rio Doce. Mas estavam sendo expulsos das terras pelos criadores de gado.

O Brasil vivia um período de grande efervescência política com o governo de Jango. Chicão havia sido metalúrgico no Vale do Aço, mas tinha sido despedido por causa da sua combatividade. Sobrevivia como sapateiro em Valadares. Foi, então, designado pelo Partidão (o Partido Comunista Brasileiro) para organizar os sem-terra na região do Rio Doce.

Jango abraçou a causa da reforma agrária. Chicão esteve várias vezes com ele e falava com frequência com o titular da Superintendência da Reforma Agrária (Supra), João Pinheiro Neto. Um ato foi assinado formalmente no célebre comício do dia 13 de março de 1964, na Central do Brasil, no Rio.

Chicão estava presente. Por esse decreto, as terras ao longo de todas as rodovias e ferrovias federais seriam desapropriadas e transferidas aos camponeses. Seria entregue também a eles a fazenda do Ministério, pertencente ao Ministério da Agricultura, em Governador Valadares.

Exílio. Dois dias antes do 31 de março, a sede do sindicato foi atacada pelos fazendeiros armados. Feriram a tiros a mulher de Chicão e uma filha dele de 4 anos. Os camponeses resistiram e mataram o filho de um fazendeiro. Sob tensão, Chicão e Carlos Olavo foram retirados da cidade por uma patrulha da Polícia Militar e trazidos para Belo Horizonte. Aqui, desapareceram na clandestinidade.

Carlos Olavo se exilou no Uruguai e na Bolívia. Chicão foi preso, anos depois, em Porto Alegre. Foi torturado. Solto, saiu do país e perambulou pela Europa até encontrar abrigo na Bulgária, onde estudou ciências agrárias e econômicas. Com a anistia, voltou ao Brasil, trabalhando na Prefeitura de Belo Horizonte, durante o mandato do prefeito Célio de Castro, antes de se mudar para Abadiânia.

Homenagem

Documentário. Chicão está também num documentário produzido pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais: “Na Lei e na Marra: 1964, um Combate antes do Golpe”.
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