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Redes sociais, ultra-capitalismo e vidas frustradas

publicada em 26 de novembro de 2018
Redes sociais, ultra-capitalismo e vidas frustradas
POR REDAÇÃO



Como a internet, em deriva individualista, ameaça criar um mundo em que afetos, laços de compromisso e política dissolvem-se em consumo e narcisismo. Atenção: o problema é anterior à rede


Por César Rendueles, em entrevista à RT Notícias | Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel | Imagem: Olivia Linn

César Rendueles (Girona, 1975) é professor do Departamento de Teoria Sociológica da Faculdade de Ciências Políticas e Sociológicas da Universidade Complutense de Madri. É também autor do livro Sociofobia: El cambio político en la era de la utopía digital [Edição em português: Sociofobia: Mudança política na era da utopia digital. Sesc, São Paulo, 2016], onde analisa o efeito das tecnologias digitais de comunicação na realidade política e social.

Seu discurso, nesse sentido, exerce uma espécie de contrapeso, diante do otimismo generalizado que até há pouco vigorava com relação ao mundo digital e às esperanças, provavelmente excessivas, que a sociedade contemporânea depositava nas novas e fulgurantes tecnologias de comunicação.

Rendueles, na sua obra e também nesta entrevista, aponta para a fragilidade dos laços humanos por trás das frenéticas redes sociais e suas multidões de followers (“seguidores”), lamentando, ao mesmo tempo, a enorme quantidade de vidas frustradas e empobrecidas no ambiente consumista e profundamente individualista que caracteriza o capitalismo neoliberal.

A entrevista foi concedida para a agência RT e publicada no seu site em espanhol (RT Noticias). Ei-la:

O que você chama de Utopia Digital? Estaríamos confiando demais na possibilidade da tecnologia digital resolver nossos problemas?


Atribuímos hoje à tecnologia uma capacidade desmesurada para solucionar problemas sociais, políticos e até ecológicos de todo tipo. É incrível! Por exemplo, em praticamente todos os debates sobre a crise ambiental sempre aparece alguém dizendo que a geoengenharia ou a nanotecnologia vão solucionar a crise energética. E é assim com tudo: começa-se acreditando que a crise de legitimidade política vai se resolver com a participação digital; a crise da educação, com mais geringonças tecnológicas nas salas de aula… É alucinante, porque, além de tudo, isso está introjetado tanto na esquerda quanto na direita.

Parece-me que a confiança no digital tem a ver com a ilusão de que essa tecnologia nos exime dos processos deliberativos, nos livra da necessidade de buscar acordo a partir de posições muito diferentes e em conflito, por meio de algo como uma coordenação espontânea e consensual que não passa pela deliberação. Nesse sentido, me parece que tal concepção da tecnologia é herdeira da forma como o mercado é concebido a partir da tradição liberal: a ele se atribuía a capacidade de gerar coordenação social sem recorrer a mecanismos deliberativos, descartando o conflito político.

É claro que hoje, depois de 2008, ninguém mais acredita muito no mercado. Ninguém acredita que ele tenha essa capacidade para resolver os conflitos políticos: ao invés disso, os incrementa, como sempre defenderam os marxistas. Assim, trasladamos do mercado para a tecnologia essa confiança de que surja algum tipo de ordem emergente e espontânea, que não passe pelos processos deliberativos democráticos.

Em certa ocasião você propôs que as redes sociais também cumpririam uma função semelhante à dos antidepressivos…

A era das redes sociais é também a era da fragilização social. Esse é um fato empírico. Vivemos em sociedades muito individualizadas, com vínculos sociais muito débeis, e vínculos organizativos também muito débeis. É nesse contexto que as redes sociais adquiriram tanto protagonismo.

Aí se estabelece um tipo de relação que pode até ser muito abundante, com milhares de followers e “amigos”, mas que é também bastante superficial e frágil, sobretudo porque é um tipo de relação reversível pelo capricho, que não está baseada no compromisso, mas na preferência: se me canso de seguir alguém ou passo a não gostar que me siga, simplesmente o deixo de seguir ou o bloqueio. Os vínculos sociais efetivos não funcionam assim. Não abrimos mão dos nossos amigos porque tenham se tornado chatos em alguma ocasião; não abrimos mão das organizações políticas ou sindicais às quais pertencemos porque não estamos dispostos a comparecer a uma assembleia ou a uma manifestação…

Ao mesmo tempo, as relações digitais, ainda que sejam superficiais e frágeis, nos proporcionam uma certa sensação de conexão, e por isso cheguei a compará-las com o Prozac. Ninguém confundiria a sensação que um antidepressivo produz com uma vida plena ou com a autorrealização pessoal, ninguém seria tão idiota! E, no entanto, o que a ideologia digital conseguiu foi fazer-nos confundir a vida virtual com uma vida não apenas plena mas também superior àquela que tínhamos no mundo analógico.

Como isso afetaria a política? As redes sociais mudaram a maneira de fazer política?

Por um lado, eu não creio que as tecnologias digitais sejam realmente tão importantes, e, por outro, creio que há muito mais continuidade entre o mundo analógico e o digital do que se supõe. Vejo como bastante questionável esse imaginário de ruptura sistemática que cerca o mundo da tecnologia digital.

Nesse sentido, me parece que o que as redes sociais e a tecnologia digital fizeram foi acelerar processos que já estavam em curso. A democracia de auditório, por exemplo, é um fenômeno anterior ao surgimento das redes sociais, e tem a ver, por uma parte, com os processos de despolitização associados ao contexto neoliberal e, por outra, com o uso, nesse contexto, dos meios de comunicação tradicionais, como a televisão, marcado por um progressivo desinteresse da cidadania frente à política. Aí nasceu a democracia de auditório. Ao aterrissarem sobre esse modelo, o que as redes sociais fizeram foi intensificá-lo.

Pode-se entender melhor o que as redes sociais operaram se as vemos como televisores pequenininhos dentro do nosso celular, e não como um paradigma completamente novo. Fala-se muito sobre como Donald Trump utiliza as redes sociais, mas frequentemente se esquece que ele mesmo se tornou famoso com um reality show de televisão. O uso que Trump faz das redes sociais se parece muito mais a estratégias tradicionais de propaganda de massa que a um tipo novo de estratégia reticular digital supersofisticada. É a propaganda de sempre, massiva e baseada diretamente na manipulação. Por isso, insisto que há muito mais continuidade do que parece entre o passado analógico e o presente digital.

Há quem observe que o funcionamento mesmo das redes e dos sites de busca faz com que o usuário acabe em uma bolha, tendo acesso a conteúdos previamente selecionados conforme suas preferências, por meio de um filtro pessoalizado definido pelos servidores. Isso não faz com que estejamos mais isolados que conectados? E também não afeta a política, no sentido mais clássico e amplo do termo?

Esse mundo é curioso porque nele ocorrem duas dinâmicas contrapostas. É verdade que a quantidade de informação e de opiniões diversas é infinitamente maior do que no mundo analógico, mas nós somos seres limitados e com uma capacidade limitada de processamento — o que geralmente esquecemos. A oferta está aí, mas nós somos seres neolíticos, de capacidade limitada. Então, relacionamo-nos com pacotes limitados de informação, mas acreditamos que eles procedem de uma esfera pública infinita, onde todas as opções estão disponíveis, e que escolhemos com inteira neutralidade.

O efeito disso é bastante perverso, porque não apenas opera aí esse filtro de bolha (que seguramente já existia antes, quando se escolhiam os jornais e canais mais afins para se informar), mas que agora traz algo mais: a ideia de que a informação procede da mais absoluta livre escolha e de um crivo crítico isento. Isso é o mais característico desses tempos: não tanto que haja uma tendenciosidade pronunciada nos meios de comunicação — isso permanece mais ou menos como sempre —, mas que agora nós nos achamos agentes críticos supersofisticados. E isso tem um efeito pernicioso.

Você comentou certa vez que quando trabalhava no seu livro Sociofobia, o que você queria realmente era escrever sobre a ideia de fraternidade, e não sobre tecnologias digitais de comunicação. É muito ingênuo pensar que as redes sociais possam contribuir para uma maior fraternidade social?

No fundo, eu nunca me interessei muito pela tecnologia digital. O que acontece é que acabei arrastado para estudar isso porque, em muitos dos problemas que me interessavam, eu detectava que se recorria à tecnologia digital como uma solução que me parecia fictícia, tanto em questões da educação como da política, e em especial no que respeita aos processos de política emancipatória.

Um dos problemas que temos observado nas últimas décadas, a partir da filosofia política e da sociologia crítica, é que, de alguma forma, os processos emancipatórios exigem condições não apenas materiais e políticas, mas também sociais, no sentido da necessidade de uma certa urdidura de relações para que eles aconteçam. Aprofundar a democracia torna-se muito complexo quando se está em uma sociedade muito atomizada e muito individualista.

Creio que os que veem com mais otimismo o auge do paradigma digital tendem a pensar que aí se oferece uma solução aos dilemas contemporâneos da sociabilidade, e que esse paradigma aportaria potencialidades críticas [N. do T.: Esse é exemplarmente o caso da assim chamada corrente “aceleracionista”, inspirada pelos trabalhos de Gilles Deleuze e Felix Guattari, amadurecida por Antonio Negri e Michael Hardt, e que encontra em Steven Shaviro, Alex Williams e Nick Srnicek seus “gurus” atuais. No Brasil, foi recepcionada sobretudo pelo “pós-tudismo” do coletivo Universidade Nômade]. Eu vejo o contrário: creio que só quando saibamos solucionar ou superar essa fragilização das relações sociais, encontraremos usos para as tecnologias da comunicação que hoje sequer imaginamos.

Enquanto isso, o que se vê nas redes sociais é que esse estado de fragilização social e atomização pode torná-las muito destrutivas. Nelas, nos insultamos continuamente e produzimos essas dinâmicas de linchamento tão perniciosas [N. do T.: Para uma abordagem do fenômeno dos linchamentos virtuais e da “pós-censura”, veja-se o instigante ensaio de Juan Soto Ivars, publicado pela editora Debate, de Barcelona, em 2017: Arden las redes. La poscensura y el nuevo mundo virtual]. No momento resta muito pouca fraternidade.

Você crê que as redes sociais seriam antes de mais nada uma armadilha para controlar mais as pessoas ou para obter informação para uso comercial? Estariam na realidade mais a serviço do chamado Big Data que das relações interpessoais?

Aqui também vejo uma grande continuidade entre os processos de controle social que estamos vivendo agora e os que se viveram no passado. É verdade que agora a Audiência Nacional [N. do T.: Tribunal de terceira instância na Espanha, que zela, também, pela aplicação da assim chamada Lei Mordaça, aprovada pelo governo do Partido Popular (direita), e que, desde 2017, restringe arbitrariamente as liberdades de reunião, expressão e informação no país] se dedica a vigiar o Twitter e as redes sociais, para botar as pessoas na cadeia. Mas é igualmente verdade que ela vem encarcerando gente e fechando meios de comunicação por conta de suas opiniões há muito tempo.

Hoje todos conhecem Pablo Hasél [N. do T.: rapper comunista espanhol, condenado judicialmente em 2014 por “apologia ao terrorismo”, por suas letras em defesa de grupos armados de extrema esquerda da década de 70] e Edward Snowden, que são associados ao ambiente digital… Mas menos gente se lembra do diretor do jornal vasco Egunkaria, Martxelo Otamendi, que em 2003 foi torturado por forças policiais sob a supervisão de um juiz da Audiência Nacional [N. do T.: Uma vez denunciadas as torturas, o caso foi habilmente acobertado pela justiça espanhola, o que levou a Corte Europeia de Direitos Humanos (ou Tribunal de Estrasburgo) em 2012 a condenar o Estado espanhol a uma indenização de 48 mil euros em favor de Otamendi, por prevaricação e danos morais].

Entre os dois âmbitos (o digital e o analógico) há uma considerável continuidade. Fala-se do controle biométrico que as redes sociais podem introduzir, mas na Espanha o controle biométrico existe há décadas e se chama carnê de identidade. Aos catorze anos todos são obrigados a registrar suas digitais, algo que, para os de fora da Espanha, parece um pesadelo orwelliano, enquanto na Espanha sempre pareceu algo absolutamente normal [N. do T.: O mesmo se diga da recente identificação biométrica compulsória feita pela Justiça Eleitoral brasileira, que obrigou os eleitores a registrarem eletronicamente todas as suas digitais, ao invés, funcionalmente, de apenas um dedo (como nos bancos). Por que razão tal zelo de controle? por qual funcionalidade eleitoral?…]. Desse modo, também é preciso refletir sobre a tolerância que tivemos no passado a respeito dessas formas de repressão e se perguntar por que só quando entram as redes digitais isso começaria a nos preocupar.

E quanto ao tema do Big Data, o único que ele fez, mais uma vez, foi acelerar tendências já em curso. É verdade que o desenho que configurou o ambiente digital nas últimas décadas, regido por uma perspectiva radicalmente mercantil, facilitou a emergência desse fenômeno. Se o ambiente digital tivesse sido regulado por instituições públicas, teria sido mais fácil impedir os abusos desse processo de exploração mercantil, mas como todo seu desenvolvimento foi privado, agora sai mais caro correr atrás do prejuízo que a semente mercantil plantou.

Também é verdade que, na exploração do Big Data para o desenvolvimento de ferramentas repressivas se sobrepõe uma tradição de políticas punitivas no contexto neoliberal. Pensar essas coisas apenas em termos de um Grande Irmão digital é não entender toda a sua extensão.

O mesmo acontece com o extrativismo digital, ou seja, todo esse conjunto de ações destinado a converter nossas relações sociais em fonte de lucro para as grandes empresas. Nosso capital social e relacional, que serve, por exemplo, para pôr em aluguel uma acomodação no AirBnB ou ser motorista em um serviço de transporte, é explorado por uma empresa que não faz nada mais senão dispor uma mínima estrutura digital. Isso me parece ter um parentesco muito próximo com os processos prévios de financeirização, que existem desde o começo dos anos 80, e pelo qual as maiores fortunas são geradas a partir de não produzir basicamente nada. Essas dinâmicas extrativas exploram novos territórios. Uma vez esgotado o mundo real, o mundo digital passa a ser o novo terreno a colonizar.

Em suma, pode-se dizer então que a eclosão das tecnologias digitais serviu principalmente para acelerar ou intensificar processos sociais que já estavam em curso, mas que, em essência, não revolucionou nada…

Exatamente. Eu sou um marxista e um materialista bem clássico, e os marxistas servimos para ser chatos, para dizer sempre o mesmo. E às vezes isso é útil. Algumas vezes somos apenas chatos, e não servimos para nada, mas em outras vezes, quando todo mundo está insistindo no novo, que estamos em um contexto novo e que isso é uma nova fronteira, eu creio que os chatos somos úteis, porque lembramos que nas nossas sociedades muitas vezes as continuidades pesam mais que as rupturas.

Certa vez você afirmou que o consumismo faz com que as pessoas tenham vidas frustradas, estragadas [no original: “vidas dañadas”]. De que modo esse sistema estraga ou prejudica a vida das pessoas?

O consumismo não consiste apenas em comprar muito. O consumismo é, antes, um ideal de vida boa e de autorrealização no mercado, através da compra e venda, e é um modelo de vida muito disseminado no qual todos, por desgraça, participamos em alguma medida.

E é um modelo que produz vidas frustradas porque impede a você ter um projeto de vida boa minimamente coerente. Você fica entregue aos caprichos do mercado, como se fosse um hamster perseguindo a última novidade, a tendência que esteja na moda.

Aspirar a ter uma vida boa exige ter também um certo projeto moral de vida, exige pensar que tipo de pessoa você pretende ser, trabalhar nessa construção e assumir que às vezes também fracassamos. Eu creio que o consumismo dinamita isso, porque atomiza completamente a sua vida e torna você tão simplesmente um eleitor racional que passa a ter como única perspectiva de vida o agora. Você não tem nem passado nem futuro. Suas únicas perspectivas são suas preferências presentes, que amanhã vão mudar e já serão diferentes das de ontem. Eu creio que, durante períodos curtos de vida, isso até possa ser excitante ou interessante, mas no médio prazo… são vidas terríveis! São vidas completamente vazias, seguramente porque são inconsistentes com nossa natureza humana. Não somos assim. Somos seres que precisamos articular um passado e ter projetos de futuro, em geral compartilhados.

Se você tivesse que apontar qual a carência ou problema mais importante do nosso atual estilo de vida, qual apontaria?

A desigualdade. Estou cada vez mais convencido de que a falta de igualdade é o motivo mais profundo das vidas frustradas que levamos. Sei que é um valor muito controvertido, e é o aparentemente mais feio do binômio liberdade-igualdade [N. do T.: para um pequeno excurso sintético sobre o tratamento que Norberto Bobbio deu à relação lógica entre liberdade e igualdade, consulte-se a entrevista dada por este tradutor]. Além disso vivemos em um momento de tremenda exuberância da liberdade: atualmente a liberdade é um valor cotado em alta, enquanto a igualdade é vista com suspeita. Reconhece-se a igualdade de oportunidades, mas isso é uma degeneração absoluta do ideal igualitário. A igualdade de oportunidades é pura meritocracia. E isso não tem nada a ver com a igualdade. A igualdade tem a ver com a chegada, não com o ponto de partida. Estou absolutamente convencido de que, sem uma recuperação de um modelo de igualdade forte, é completamente impossível recuperar os ideais emancipatórios ilustrados.
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