Quinta-feira, 15 de novembro de 2018.
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A peste emocional pode ser vencida

publicada em 02 de novembro de 2018
A peste emocional pode ser vencida
POR DÉBORA NUNES


Manifestação pró-nazismo em 1938, na Áustria anexada pela Alemanha

William Reich viu o movimento de ódio se disseminando pela Alemanha na época de Hitler como uma espécie de doença contagiosa. É o mesmo que vivemos no Brasil

Por Débora Nunes

Consegui! A extrema indignação e raiva que senti ao assistir aquele vídeo grotesco e ler aquelas palavras de ódio foi sendo vencida aos poucos com respiração e força interior. A sensação foi de vitória quando consegui responder à pessoa que o enviou com calma e educação, evidenciando a montagem e convidando-a a ver os fatos de maneira isenta. Não tenho a mínima ideia se ela vai ponderar algo sobre o que eu disse, mas tenho a clara ideia de que eu venci o clima que a extrema direita quer espalhar no Brasil. Mantive, com esforço, a minha paz de espírito e de algum modo reverti a situação, não aderindo à escalada de medo e ódio que só favorece o candidato da intolerância.

Para conseguir isso foi bom trazer à mente a máquina subterrânea, movida a muito dinheiro, que está produzindo esses vídeos e nas pessoas que estão sendo pagas para disseminarem essas mentiras. O fato da extrema direita quase ganhar as eleições brasileiras no primeiro turno está intimamente relacionado com a vitória de um homem desqualificado como Trump como presidente dos Estados Unidos. Está vinculado à vitória do Brexit, quando, perplexos, ingleses e europeus viram a opção pela saída da Inglaterra da União ganhar o pleito, com todas as consequências negativas para ambos lados. Esses fenômenos têm ao menos uma característica em comum: a manipulação das pessoas pelas redes sociais através de empresas contratadas para manipular emoções, estimulando o ódio.

Acredito firmemente que vamos vencer essas eleições conversando, argumentando, ouvindo e chamando as pessoas à razão e à convivência civilizada. Cada um e cada uma vencendo sua própria aversão e fazendo o que eles não esperam: sair da armadilha deles. Não convenceremos os que visceralmente estão a favor da barbárie, ou que terão vantagens com ela, mas faremos pessoas ao redor deles pensarem no que poderia acontecer se o Brasil se deixasse levar palas fake news e se tornasse um país armado, violento, racista, homofóbico e intolerante com quem pensa diferente. Eu mesma, uma moderada que fala e pratica a paz interior como caminho de transformação pessoal e do mundo, já fui agredida verbalmente nas redes sociais e ameaçada de exílio com uma passagem só de ida para a Venezuela. Imaginem os mais exacerbados… iriam ser torturados e fuzilados?

TEXTO-MEIO
Sim, voltando à peste emocional e sua cura. William Reich viu o movimento de ódio se disseminando pela Alemanha na época de Hitler como uma espécie de doença contagiosa. Seus estudos sobre o comportamento mostravam como os humanos estão expostos a reações violentas em cadeia quando as condições são dadas. A raiva, a impotência, as dificuldades da vida e as repressões psicológicas, principalmente sexuais, são combustível para a peste emocional e sua disseminação. Como todo contágio, ele é mais provável em quem está mais debilitado. Observem em torno de vocês: as pessoas que mais disseminam o ódio não coincidem com aquelas que se sentem menos reconhecidas? Não são as que que não suportam que outras pessoas, sobretudo as mais pobres, usufruam de direitos como ir à Universidade e viajar de avião? Não são os conservadores empedernidos que querem controlar as escolhas libertárias dos outros?

Porém, se os que disseminam mentiras são milhares, os que “curtem” calados essas mentiras e votam na direita são milhões, foram quase 50% dos eleitores no primeiro turno. Reich dizia que se a “peste” contamina tantos é porque todos e todas temos ódios e repressões que podem nos impedir de ver com clareza a realidade e, por exemplo, votar em um candidato desqualificado e cujo programa é o de favorecer as elites. Os nordestinos foram mais resistentes à onda contagiosa porque os efeitos das políticas sociais foram tão concretos que o senso de realidade foi mais forte. O caminho da cura para a peste emocional passa, num primeiro momento, por nós mesmos.

A pessoa a quem respondi no Facebook está comprometida racionalmente com o projeto da extrema direita ou está acometida dessa doença que incita o ódio pela manipulação da informação? Quando respondemos educadamente a uma montagem em vídeo, foto ou uma mensagem raivosa falada ou escrita, estamos mostrando que existe um modo sadio de conviver. Isso bota água fria na fervura e, ao baixar a temperatura, dá tempo e condição para as pessoas que as seguem refletirem e deixarem de seguir os manipuladores. Acredito que se excluímos os que votam na extrema direita de nossos contatos deixamos campo livre para que a mentira se dissemine sem contestação, para que o ódio pareça ser o normal. Não é fácil a convivência com o intolerável verbal, mas esse intolerável ainda é verbal. Com os que mataram Marielle e Mestre Moa a mão da justiça tem que ser implacável.

Em alguns dias, não vamos curar as causas profundas da peste emocional, tanto as materiais quanto as repressões milenares, mas podemos reverter muitos votos com civilidade e convencer pessoas que se abstiveram no 1º turno a ir votar no 2º pra evitar o pior. Amenizaria muito o clima de raiva ao PT se o partido pedisse desculpas pelos erros que cometeu, mas ele ainda não o fez por uma visão antiquada – e muito masculina – de que nos fragilizamos quando reconhecemos erros. Que bobagem imensa. Os acertos do PT seriam muito mais valorizados se reconhecessem seus erros. Ok, eles ainda não o fizeram, mas em nossas respostas civilizadas aos ataques e em conversas privadas com familiares e amigos nós podemos fazer, ecoando a opinião de tantos petistas que se envergonharam com muito do que viram, mesmo tendo clareza de toda a manipulação da mídia e perseguição de certos juízes.

A peste emocional será vencida quando sairmos nós mesmos da intensidade emotiva contra pessoas do outro lado, mantendo nossa indignação e luta contra as ideias do outro lado. Venceremos quando conseguirmos fazer com que pessoas que não gostam do PT e de Lula, mas que prezam a democracia, se sintam motivadas a ir votar em Haddad. Venceremos quando fizermos uma barreira de emoções positivas que impeça a peste de avançar e reduza seu campo de influência. Está nas nossas mãos, e não nas de Haddad ou do PT apenas, vencer a extrema direita. É imprescindível que a campanha desse excelente candidato organize a união da cidadania contra a ditadura, fazendo alianças sólidas e programáticas. Vamos assim corrigir as atrocidades cometidas pelos golpistas no campo legal, social e econômico. Vamos assim aprofundar a conquista de direitos já praticada até aqui e que transformou o Brasil num país respeitado. Respire, converse com sua família e amigos, vá pro seu telefone e pro seu computador, veja quem será a pessoa que testará sua paciência hoje e responda calmamente. Perdoe-se se não conseguir nas primeiras vezes. A causa é imensa e vale a pena. A peste pode ser vencida.
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