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Escravidão no Brasil é tema de um documentário exemplar

publicada em 17 de novembro de 2017
Escravidão no Brasil é tema de um documentário exemplar

Celso Lungaretti




Por­tugal foi res­pon­sável pela maior emi­gração for­çada da his­tória da hu­ma­ni­dade. De An­gola chegou ao Brasil um nú­mero 10 vezes su­pe­rior de es­cravos, com­pa­rado à Amé­rica do Norte. Este do­cu­men­tário, sobre o pas­sado co­lo­nial do Brasil, foi re­a­li­zado em 2000 por Phil Grabsky, para a BBC His­tory Channel. Ga­nhou um Gold Remi Award no Houston In­ter­na­ti­onal Film Fes­tival em 2001. Uma ver­dade in­con­ve­ni­ente da his­tória de Por­tugal.

En­quanto todo o mundo co­nhece a his­tória da es­cra­vidão nos EUA, poucas pes­soas per­cebem que o Brasil foi, na ver­dade, o maior par­ti­ci­pante do co­mércio de es­cravos. Qua­renta por cento de todos os es­cravos que so­bre­vi­viam à tra­vessia do Atlân­tico eram des­ti­nados ao Brasil, en­quanto apenas 4% iam para os EUA. Chegou uma época em que a me­tade da po­pu­lação bra­si­leira era de es­cravos. O Brasil foi o úl­timo país a abolir a es­cra­vidão, em 1888.

O do­cu­men­tário tem de­poi­mentos dos his­to­ri­a­dores João José Reis, Cya Tei­xeira, Ma­ri­lene Rosa da Silva; do an­tro­po­lo­gista Peter Fry e ou­tras pes­soas que contam os efeitos de sé­culos de es­cra­vidão no Brasil de hoje. Este é um im­por­tante do­cu­men­tário sobre a his­tória dos ne­gros, his­tória afri­cana e es­tudos la­tino-ame­ri­canos.

Tre­chos mar­cantes do do­cu­men­tário



Os por­tu­gueses tra­tavam a África como uma fonte de re­cursos. Assim, eles im­por­tavam, im­por­tavam, achando que os re­cursos ja­mais se es­go­ta­riam.

Quase todas as casas por aqui são enormes ar­ma­zéns, onde os es­cravos são de­po­si­tados e os cli­entes vêm comprá-los.

Gra­du­al­mente, ao final do sé­culo 16, as plan­ta­ções au­men­taram suas ri­quezas, tor­naram-se ca­pazes de com­prar es­cravos es­tran­geiros e subs­ti­tuíram a mão de obra na­tiva que es­tava sendo usada. E o Brasil se torna uma grande colônia es­cra­va­gista.

As vastas terras do Brasil ofe­re­ciam opor­tu­ni­dades enormes. Quan­ti­dades enormes de açúcar eram en­vi­adas para portos como An­tuérpia, Ams­terdã e Ve­neza.

Em 1598, um vi­a­jante na In­gla­terra notou o quanto os dentes da rainha Eli­za­beth es­tavam es­curos de tanto açúcar. A causa dos pro­blemas den­tá­rios da rainha era a nova fonte de ri­queza dos por­tu­gueses. O açúcar era o ouro bra­si­leiro.

Os es­cravos tra­ba­lhavam como car­pin­teiros, cons­tru­tores e muitas ou­tras ocu­pa­ções. En­quanto a po­pu­lação negra au­men­tava nos EUA, no Brasil, apesar da im­por­tação maior, ela per­ma­necia a mesma. A ex­pec­ta­tiva de vida dos que che­gavam era de apenas seis ou sete anos e os es­cravos nas­cidos no Brasil vi­viam, em média, só até os 20 anos.

E quem eram os co­lo­ni­za­dores? Muitos eram jo­vens ou am­bi­ci­osos aven­tu­reiros que se viram en­tro­ni­zados num mundo de ri­queza, li­ber­dade e for­ni­cação. Muitos eram cri­mi­nosos que Por­tugal pre­feria manter longe do país.



O cruel Do­mingos Jorge Velho

Se a na­tu­reza mas­cu­lina da co­lo­ni­zação por­tu­guesa era um mo­tivo da cru­el­dade, o outro era econô­mico. Se os es­cravos mor­ressem, não havia pro­blemas para subs­tituí-los.

A ne­ces­si­dade de es­cravos au­mentou ver­ti­gi­no­sa­mente quando, por volta de 1690, o ouro foi des­co­berto no in­te­rior.

A nova cres­cente pros­pe­ri­dade do Brasil foi ca­na­li­zada para novas vilas e ci­dades. A in­te­gração bi­o­ló­gica da mu­lher afri­cana com homem eu­ropeu era na­tural. Não havia aquela ex­clusão ét­nica que era pra­ti­cada nos EUA. (...) A ex­pansão do re­la­ci­o­na­mento se­xual entre se­nhor e es­cravas pro­duziu mi­lhares de cri­anças mes­tiças.

Cen­tenas de igrejas foram cons­truídas, para serem usadas pelos brancos e ne­gros recém-con­ver­tidos. Essas igrejas eram cons­truídas e de­co­radas pelos es­cravos.

* * *

"Ir­mãos ne­gros, a es­cra­vidão que vocês so­frem por mais do­lo­rosa que seja, ou que pa­reça ser, é apenas uma meia es­cra­vidão. Vocês são es­cravos apenas na parte ex­te­rior, que é o corpo. Con­tudo, na outra e mais nobre me­tade, que é a alma, vocês não são es­cravos, mas li­vres! Quando vocês servem aos seus se­nhores, não o fazem como se fosse a um homem, mas sim, como se es­ti­vessem ser­vindo a Deus!"
* * *

Muitos es­cravos não se­guiam à risca o ca­to­li­cismo. Eles se es­for­çavam para manter suas crenças tra­di­ci­o­nais, ve­nerar seus pró­prios santos. Mú­sica e dança tor­naram-se in­se­pa­rá­veis na iden­ti­dade bra­si­leira em de­sen­vol­vi­mento.

No início dos anos 1800, ocor­reram al­gumas re­voltas oca­si­o­nais. (...) Al­guns es­cravos que­bravam má­quinas, ou­tros ate­avam fogo às plan­ta­ções. Ou­tros sim­ples­mente en­travam em greve.

**

Zumbi e os guer­reiros do qui­lombo de Pal­mares, sím­bolos da re­sis­tência dos ne­gros à es­cra­vidão

Ou­tros es­cravos ex­pres­savam seu des­con­ten­ta­mento fu­gindo. Es­cravos que fu­giam uniam-se a co­mu­ni­dades de fu­gi­tivos cha­madas de qui­lombos. (...) Eram quase in­de­pen­dentes. Eles eram sempre alvo da po­lícia, que ten­tava eli­miná-los.

Uma das tra­di­ções que os es­cravos fi­zeram questão de manter era uma arte mar­cial cha­mada ca­po­eira. Gan­gues de ca­po­ei­ristas do­mi­navam as ruas, usando suas ha­bi­li­dades para atacar os brancos e a po­lícia. A tensão subiu e então uma nova le­gis­lação foi criada (1833). Manter o con­trole da po­pu­lação de es­cravos es­tava se tor­nando mais di­fícil.

Nos anos de 1800, ta­baco e café juntam-se ao ouro e ao açúcar para serem a chave de eco­nomia.

* * *


Em 1822, o Brasil de­clarou in­de­pen­dência de Por­tugal

Au­mentou a pressão in­ter­na­ci­onal para abolir a es­cra­vidão. A in­fluência exer­cida pela In­gla­terra na eco­nomia bra­si­leira acabou per­pe­tu­ando-se e ela co­la­borou com a con­ti­nu­ação da es­cra­vidão no Brasil. Im­por­tava açúcar e café, pro­du­zidos por es­cravos, até o final do sé­culo 19.

Ofe­recer li­ber­dade con­di­ci­onal apa­ren­tava ser um úl­timo sus­piro contra a abo­lição. Du­rante o sé­culo 19, 1 mi­lhão de novos es­cravos chegou do oeste afri­cano ao Brasil. O con­tínuo con­fisco bri­tâ­nico de na­vios es­cravos e sua res­trição ao co­mércio sig­ni­fi­cava que o trans­porte de afri­canos teria de acabar. Cada vez mais es­cravos es­tavam aban­do­nando as plan­ta­ções.

Em 13 de Maio de 1888, a prin­cesa Isabel pro­clamou a cha­mada Lei Áurea. O Brasil foi o ul­timo grande país a ofi­ci­al­mente abolir a es­cra­vidão.

Em­bora fossem le­gal­mente li­vres, ainda es­tavam eco­no­mi­ca­mente li­gados às terras, minas ou ou­tras ocu­pa­ções. Os ne­gros con­ti­nuam apri­si­o­nados, vi­vendo nas fa­velas, não têm em­pregos. Eles são es­cravos do sis­tema.


Celso Lun­ga­retti é jor­na­lista.
Blog: Náu­frago da Utopia.
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Celso Lugaretti

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