Segunda-feira, 18 de dezembro de 2017.

Que cidade é essa?. Ângelo Cavalcanti

publicada em 15 de novembro de 2017

Que cidade é essa?


Ângelo Cavalcante


O modelo de cidade submetida aos rigores da lógica do capital é um fracasso retumbante em todos os seus sentidos e quadrantes. Não há qualquer aspecto, frente ou dimensão desse tipo de organicidade a ser reconhecida ou valorizada.

As placas de "aluga-se" se multiplicam nas fachadas de prédios, casas e apartamentos; Dezenas e dezenas de galpões ou depósitos se acham integralmente imprestáveis e abandonados. Em ligeiro passeio pelos bairros periféricos já não se conta a quantidade de "vende-se" e, espantoso, de fronte ou em seus lados, se verifica um sem-número de lotes integralmente vazios.

Seis imobiliárias anunciam novos loteamentos. "Compre já e saia do aluguel" é o grande mote da mídia da especulação. Um ex-prefeito, especulador nato, se esforça por mobilizar a população a partir das gritas matinais de carros-de-som onde promete (incrível!) resolver o "problema do aluguel" e que tanto aflige as pessoas. O "ex" vende casas pelo "Minha Casa, Minha Vida" (MCMV), a única política de financiamento habitacional ainda existente desde o antigo Banco Nacional de Habitação (BNH).

Teimoso na esperança de alguma política ou intervenção local ao menos para mitigar a lástima da "não-moradia", recorro às pautas da câmara municipal; para verificar alguma proposta do parlamento local para o drama da moradia: Nada! Sequer existem registros sobre alguma possibilidade para, quem sabe, alguma mitigação do histórico e gigantesco drama da habitação.

A cidade, absolutamente entregue às máfias da especulação imobiliária, comporta em seu interior um amplo deserto urbano ou suburbano; é como pensar um quebra-cabeça sem peças; a imagem nunca será definida, feita, conformada. Minha cidade é incompreensível!

É burrice que conduz a maldade e, da mesma forma, maldade que gera mais burrice mas, de outra maneira, os mais atentos sabem que é muito antigo o debate acerca do vínculo firme entre a miséria intermitente e a produção direta de doenças mentais. Vamos aos dados! Levantamento feito em 2013 a partir de dados do censo do IBGE de 2010, pela ONG "Meu Sonho Não Tem Fim" demonstra que das mais de 2,4 milhões de pessoas com comprovados problemas mentais permanentes acima de 10 anos no Brasil, 82,32% são muito pobres.

Dentro deste número, 36,11% não possuíam qualquer sorte de rendimento mensal e 46,21% viviam com até um mínimo. 15,49% se encontravam na faixa entre um e cinco salários e, minúsculos 2,19% percebiam acima desse patamar.

Em outros termos e de forma bastante sintética, é científico, empiricamente comprovado e atestado de que a miséria é sim, geradora, produtora e reprodutora de gravíssimas doenças mentais.

No amplo quadro da miséria e que define a cidade, sua paisagem, seus níveis de coesão e funcionamento, a falta de moradia digna e minimamente adequada é, sem sombra de dúvidas, uma das mais dramáticas faces dessa perversa cidade apropriada; cidade como possibilidade negocial; rentista e distante de qualquer horizonte social, comum e coletivo.

Essa é a cidade onde vivo! Essa é sua dinâmica estrutural e cotidiana; seu caráter e suas vergonhas expostas das quais somos inequivocamente responsáveis.

Ângelo Cavalcante - Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara.

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