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Que país é este?

publicada em 11 de novembro de 2017
Que país é este?






A submissão aos interesses do capital externo é o abandono do projeto de construção de uma nação soberana. Foto: Bruno Alencastro/Sul21


Paulo Muzell

Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Legião Urbana (1987)


Nas últimas seis décadas o Brasil viveu momentos dramáticos, de desesperança. Em 1954 tivemos o golpe contra Getúlio; em 1961 a renúncia de Jânio e o malsucedido golpe contra Jango. Em 1964 ele foi vitimado por um golpe militar tramado pela CIA e por Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Seguiram-se os sombrios vinte e um anos da ditadura militar. Finalmente no início dos anos noventa o povo pode novamente votar. Depois de quarenta anos de jejum tivemos uma eleição direta. O povo elegeu Presidente da República um membro corrupto da atrasada oligarquia alagoana. Não podia e não deu certo. Itamar, o vice, governou até o final de 1994. Em 1995 começou o ciclo FHC que se estendeu até o final de 2002. Governo de quem se dizia de esquerda e que no, poder, revelou sua face verdadeira de apátrida e de neoliberal convicto. Privatizações e desregulamentação do sistema financeiro, entenda-se, copa franca para os banqueiros, foram as marcas do seu corrupto governo.

Em 2003 começa o ciclo petista com Lula e Dilma. Foram treze anos e oito meses de um governo popular, de centro-esquerda, que, apesar da sua frágil base de apoio parlamentar e dos graves equívocos, trouxe importantes avanços na área social e de afirmação da nossa soberania que lhe asseguraram quatro vitórias eleitorais sucessivas.

Em 2015, decorridos dez anos de furiosos ataques da grande mídia e do poder judiciário contra Lula e o PT, a derrota de Aécio mal digerida pela direita, as dificuldades enfrentadas no início do segundo governo Dilma, agravadas pelos seus próprios equívocos, criaram condições propícias para a articulação de um golpe jurídico-parlamentar.

As denominadas “pedaladas fiscais” foram o ridículo pretexto escolhido para iniciar a trama que resultou na farsa do golpe. Da Câmara e do Senado, instituições desmoralizadas, dominados por uma maioria corrupta, não se poderia esperar nada. Seu papel foi cumprido de acordo com o roteiro estabelecido. A grande mídia sempre teve lado e há muitos anos trabalhava para apear o PT do poder. O poder judiciário foi a grande surpresa. A gente sabe que é e sempre foi um poder conservador. O que não poderíamos imaginar é que mostrasse, com total desfaçatez e sem nenhum pudor, que é descaradamente partidário, que tem lado, que se alinha com o que de mais atrasado e podre existe na oligarquia brasileira. Sua cúpula, o Supremo (STF) é uma caricatura de uma verdadeira corte superior. Além de corporativos, seus ministros são argentários, nepotistas, de um conservadorismo extremo que beira o fascismo. O STF é uma vergonha nacional.

No último dia de agosto de 2016 Temer e sua quadrilha – Serra, Padilha, Moreira Franco, Parente, Jucá, Kassab, Geddel, Sarney Filho, Lores e muitos outros – tomaram de assalto o governo do país. É inacreditável o que conseguiram fazer em apenas 14 meses. Um gigantesco projeto de desmonte acelerado – que dormitava nos porões da direita – foi posto em execução: entrega dos recursos minerais da Amazônia (cobre), das reservas do pré-sal, desmonte da Petrobras, a venda da Eletrobras, abandono do programa nuclear e da nascente indústria naval. Aprovaram, também, um criminoso congelamento dos gastos sociais por vinte anos e uma reforma trabalhista que suprime direitos históricos dos trabalhadores e escancara as portas para a terceirização. A política de aumentos reais do salário mínimo foi abandonada, a taxa de desemprego disparou. Em resumo: jornadas maiores, menos emprego e menos salário. Quando se imaginava que o repertório de maldades estaria esgotado, o ministro do Trabalho de Temer “liberou” o trabalho escravo no país. A submissão aos interesses do capital externo é o abandono do projeto de construção de uma nação soberana.

Um governo ilegítimo, desacreditado, com menos de 4% de aprovação popular entrega uma reserva mineral de quase 50 mil km² entre o Amapá e o Pará à exploração estrangeira do cobre, ameaçando a população indígena e comprometendo a biodiversidade da floresta amazônica.

Para completar este cenário de horrores, Temer faz cortes no bolsa família, apressa-se para aprovar a reforma previdenciária e negocia a entrega da base de lançamentos de Alcântara, no Maranhão, ao governo norte-americano. O ministro da Fazenda mantém empresas offshores em paraísos fiscais no Caribe o que mostra o grau de confiança que ele tem na solidez do sistema financeiro nacional que lhe cabe zelar.

Iniciei este comentário com versos de uma música da Legião Urbana e encerro com outros de Raul Seixas:

A solução pro nosso povo
Eu vou dá
A solução é alugar o Brasil
Os estrangeiros
Eu sei que vão gostar
Tem o Atlântico
Tem vista pro mar
A Amazônia é o jardim do nosso quintal
Raul Seixas (1980)

***

Paulo Muzell é economista. 
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sul 21

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