Domingo, 20 de agosto de 2017.

Bolsonaro? É sério?

publicada em 30 de maio de 2017
Bolsonaro? É sério?
Ângelo Cavalcante




Não vale só dizer "é o que penso!" ou "é minha opinião!" ou ainda "democracia é isso!". Nada disso! Pra começo de conversa todo pensamento é precário, limitado e apenas indica, ou não, caminhos para a identificação daquilo que perseguimos e que damos o nome de "verdade". Mesmo suas opiniões, meu caro amigo vaidoso, são cheias, carregadas de limites, falhas e contradições. É que não existem divindades no debate democrático.

Sugestão que modestamente te dou é: deixe sua crenças, certezas e adorações para o ambiente da igreja... Vai te ajudar e muito! Ao tratar de política, seja mais crítico, desconfiado e atendo. É o melhor a ser feito! E a democracia com tudo isso?

Democracia, veja bem... É tipo um jogo de futebol. É que o jogador para encarar o adversário por quarenta e cinco ou noventa minutos de partida; uma torcida eufórica; o rigor do juiz e toda a tensão daquele momento; tem que, antes, bem antes, se preparar; precisa exercitar seu corpo, sua mente; precisa estar bem entrosado com seus colegas de equipe; carece de uma estrategia para chegar no campo adversário e levar a bola até o gol e necessita ainda de atuar para impedir que o outro time rompa suas redes.

Se nosso craque não se preparar, se estiver fora de forma, se não correr como deve correr, se não conhecer seu adversário, se não tiver a disciplina necessária para o cumprimento de táticas ou estrategias, se não interagir com seus colegas e se não tiver controle emocional... Ele não conseguirá vencer.

Na política as coisas não são tão diferentes assim. A eleição não é só ir na urna e votar neste ou naquele outro candidato. De verdade, as eleições já começaram e jamais cessam e este momento anterior é absolutamente fundamental para que saibamos nos posicionar adequadamente diante dos principais temas que dizem respeito diretamente às nossas vidas. Estou falando de trabalho, renda, direitos sociais, direitos humanos, liberdade e igualdade.

Este preâmbulo um pouquinho alargado, é para tentar ajudar na compreensão do fenômeno Bolsonaro e que, ao menos nestas redes sociais, está dando o que falar. Tenho visto garotos entusiasmados com esse personagem da política; alguns anunciam voto, outros se emocionam e outros já militam empolgados e passionais.

Não está tudo bem! É legítimo sim mas não é correto, sobretudo, se estivermos falando de justiça social, de isonomia, de valores universais como igualdade e respeito aos mais fundamentais direitos das pessoas. Então, sob esse olhar e que interessa a cada um de nós, a "opção Bolsonaro" não é correta e voltarei a produzir novas análises sobre o que este estranho personagem representa sob o viés político com suas teses assentadas, linhas gerais, na intimidação e opressão de minorias, em valores que não centralizam o ser humano e que não respeitam a diversidade e a pluralidade, condição do mundo social. Ameaças, por fim, graves ao projeto e sonho de homens e mulheres livres e superiores. É o que está em causa.

Jair Bolsonaro é deputado federal pelo Rio de Janeiro por quase trinta anos. E é de longe, um dos mais improdutivos deputados do parlamento federal. Desafio qualquer um dos seus apaixonados a mostrarem um único (somente um!) projeto defendido por Bolsonaro para a defesa e promoção dos seus eleitores. Sério mesmo... Qualquer coisa a envolver saúde, educação, moradia, geração de renda, meio ambiente, seguridade e proteção social.

Não há nada, absolutamente nada! É assustador! Em três décadas de "atuação" parlamentar este indivíduo sequer é visto por seus pares; sempre do baixo clero pela mais evidente incapacidade de construção política; pelo auto-isolamento e que teve que se impor em função de não mobilizar sequer parlamentares do seu partido e; pelo imenso vazio intelectual de suas ideias, sua marca não poderia ser outra senão o desinteresse aberto pela atuação parlamentar.

Mas, como os mais velhos nos ensinam "quem não é visto, não é lembrado" e é precisamente por aí que Bolsonaro vai operando. Cheio de frases de efeito, de sonoridades o dito cujo como bom covarde e calhorda que é tem asfaltado sua marcha política atacando minorias como trabalhadoras femininas, grávidas, gays, lésbicas, negros e trabalhadores. Nada faz além disso. Nunca vi porque ninguém jamais viu ele enfrentar, ao menos citar os grandes criminosos do Brasil, a majestosa inteligência do sistema bancário, esta moderna info-economia que drena livre e solto os recursos dos trabalhadores.

Nunca e jamais falou em reformas estruturais, aliás, este que é debate nacionalista e bastante comum entre militares sérios e que pensavam o país. Jamais citou a questão da reforma agrária; da reforma urbana; de dispositivos fundamentais para a constituição de um mercado interno estável e perene, como justa remuneração entre os fatores de produção; integração regional por meio da eliminação da miséria e da pobreza; políticas ambientais sérias e eficazes para a manutenção dos nossos ativos ambientais, recordemos que a natureza é enfim, elemento decisivo para qualquer geopolítica mundial.

Bolsonaro não pensa; aliás, o "não-pensamento" é sua marca e que, assustadoramente, toma de fronte seus eleitores, militantes e simpatizantes como se fora uma epidemia. Já perguntei para alguns dos seus e que me respondem: "porque sim!" ou "para pôr ordem no país!" ou "ele vai acabar com essa baderna!".

São falas soltas, díspares, fragmentadas e que, ao fim, nada dizem. Problemas sociais,se não sabem, são resolvidos com inteligência coletiva e técnica, com a articulação de potencialidades, com a construção de consensos, com persistência, paciência e monitoramento. A força bruta, a lógica do "vai ou racha" é fórmula superada e que, todos sabemos, não dá em nada.

Mas é a marca de Bolsonaro ou "Bolsomito" como seus seguidores costumam classifica-lo. Por sinal, "mito" é uma forma de explicação não-científica, rudimentar e breve de um fenômeno dado.

A filosofa Marilena Chauí (FFLCH/USP) afirma que: "Um mito é uma narrativa sobre a origem de alguma coisa (origem dos astros, da Terra, dos homens, das plantas, dos animais, do fogo, da água, dos ventos, do bem e do mal, da saúde e da doença, da morte, dos instrumentos de trabalho, das raças, das guerras, do poder, etc.). [...]. A palavra mito vem do grego, "mythos", e deriva de dois verbos: do verbo "mytheyo" (contar, narrar, falar alguma coisa para outros) e do verbo "mytheo" (conversar, contar, anunciar, nomear, designar). Quem narra o mito? O poeta-rapsodo. Quem é ele? Por que tem autoridade? Acredita-se que o poeta é um escolhido dos deuses, que lhe mostram os acontecimentos passados e permitem que ele veja a origem de todos os seres e de todas as coisas para que possa transmiti-la aos ouvintes. Sua palavra – o mito – é sagrada porque vem de uma revelação divina. O mito é, pois, incontestável e inquestionável".

Vejam e percebem que "mito" em sua origem tem vinculações diretas e insuperáveis com aspectos metafísicos, com a teologia, com crenças, com o mundo do absoluto, nada portanto, mais diametralmente oposto ao muito relativo mundo da política, das suas ideias e de suas lutas encarniçadas.

Bolsonaro é um fiasco ético, moral; é desumano, impiedoso e flerta com coisas ou realidades que não conhece, com dramas seculares que estão para além do breviário tosco de suas compreensões e, por fim, sua importância política atual se explica pelos vãos abertos por segmentos sérios da esquerda e da direita com compromissos históricos, nacionais e republicanos e que, por evidente lapso, em algum momento descuidaram de pensar e analisar o Brasil.

Ervas daninhas surgem do descuido, da desatenção e do descaso. A política ou o seu descuido também gera suas daninhas. E bem sabemos disso!

Finalmente, é sempre atual lembrar da sua louvação ao torturador Brilhante Ustra, no episódio da cassação do mandato da Presidente Dilma Roussef. Ustra é um "militar-monstro", para nosso gaudio, já morto e que não só torturava, mas torturava impiedosamente com o compromisso de inventar a maldade, de aperfeiçoar a originalidade perversa de seus atos. Daí, empanturrar vaginas de grávidas com ratos, lacraias e outros répteis.

Bolsonaro é isso; é o que fez, faz e diz; o que anuncia e verbaliza mas é, sobretudo, o que não diz; o que esconde, finge e oculta em matéria de incapacidade, improdutividade, ociosidade e privilegio mantido por um povo desesperançado e em busca de algum rumo.

Ângelo Cavalcante - economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara.
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