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Escória, presidente trapaceiro e sujo

publicada em 16 de maio de 2017
Escória, presidente trapaceiro e sujo
Hunter S. Thompson, The Atlantic (orig. de Rolling Stone, tradução sem finalidades comerciais, para uso acadêmico)

MEMO DO GABINETE DE ASSUNTOS NACIONAIS

DATA: 1/5/1994
DE: DR. HUNTER S. THOMPSON

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"E ele clamou com voz forte, dizendo: Caiu a grande Babilônia e se tornou morada de demônios e guarida de todo espírito sujo e guarida de toda ave imunda e detestável." – Bíblia Sagrada, Revelação 18:2
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Richard Nixon foi-se e estou hoje mais pobre. Nixon era a realidade – um monstro político saído diretamente do Grendel [aclamada novelização escrita por John Gardner, em 1971, da lenda Beowulf (NTs)] e inimigo muito perigoso. Podia ao mesmo tempo apertar sua mão e apunhalá-lo pelas costas. Mentiu aos amigos e traiu a confiança da própria família. Nem Gerald Ford, o desgraçado ex-presidente que perdoou Nixon e o salvou da prisão, foi imune aos eflúvios malignos. Ford, que cria profunda e fortemente em Céu e Inferno, disse mais de uma vez a celebridades com as quais jogava golfe que "sei que estou condenado ao Inferno eterno, porque perdoei Richard Nixon."

Eu mesmo tive minha pessoal relação sangrenta com Nixon por vários anos, mas não me preocupa acabar por isso ao lado dele no Inferno. Já estive lá, com aquele feladaputa, e a provação fez de mim um homem melhor.

Nixon tinha uma capacidade inigualável para fazer seus inimigos parecerem honrados, e todos eles desenvolvemos profundo sentimento de fraternidade. Alguns dos meus melhores amigos odiaram Nixon ao longo de toda uma vida. Minha mãe odeia Nixon, meu filho odeia Nixon, eu odeio Nixon, e esse ódio nos reuniu.

Nixon riu quando lhe disse isso. "Não se preocupe", disse ele, "eu também sou homem de família e nós sentimos o mesmo por você."

Quem me trouxe para a política foi Richard Nixon, e agora que se foi sinto-me só. A seu modo, foi um gigante. Enquanto durou sua vida política – e continuou político até o último momento – todos podíamos ter certeza de encontrar nosso inimigo sempre na trilha mais suja, mais sórdida [orig. Low Road]. Ninguém precisava procurar o maldito noutros locais. Tinha os instintos de luta de um furão cercado pela cachorrada. O furão rola sobre as costas e dispara um jato de fedor de carniça podre que confunde os cachorros e os dispersa, afastando-os da caçada e da ação de matar e destripar. Mas quase sempre quem mais furiosamente mata e destripa é o furão. É o tipo de besta que luta melhor deitado de costas, até que desliza por baixo da garganta do inimigo e o prende pela cabeça com as quatro garras.

Esse era o estilo de Nixon – e se você esquecia, podia acontecer de ele matar você, como lição para os demais. Furões não lutam limpo, mano. Por isso Deus criou os cães dachshunds.

Nixon foi homem da Marinha e devia ser sepultado no mar. Muitos dos seus amigos eram homens do mar: Bebe Rebozo, Robert Vesco, William F. Buckley Jr., e alguns deles queriam funeral marinho completo.

Há pelo menos dois estilos de funerais marinhos, mas a família mais próxima de Nixon opôs-se firmemente a ambos. No estilo tradicional, o corpo do presidente morto seria embrulhado em uma mortalha de tecido de vela costurada com pontos soltos e jogado ao mar por sobre a proa de uma fragata, pelo menos a 100 milhas da costa e pelo menos a mil milhas ao sul de San Diego, de modo que o cadáver nunca viesse a dar em solo norte-americano em estado de ainda poder ser reconhecido.

A família optou pela cremação, até ser informada sobre as caríssimas implicações de cremação estritamente privada e sem testemunhas do homem que, afinal de contas, fora presidente dos EUA. Poderiam surgir questões incômodas, alusões obscuras a Hitler e Rasputin. Haveria quem iniciasse processos judiciais só para pôr as mãos em radiografias dentárias. Longas batalhas jurídicas seriam inevitáveis, com corvos liberais arrancando pedaços uns dos outros em torno de corpus delicti e habeas corpus e outros, com as seguradoras gigantes esperneando para não pagar os seguros devidos pela morte do homem. Com sepultamento no mar ou com cremação, uma orgia de cobiça e jogo duplo não demoraria a ser disparada, com suspeitas de que Nixon poderia ter forjado a própria morte, ou estaria em estado de conserva criogênica guardado por fascistas chineses com interesses nas terras da Ásia Central.

Também seria feito de joguete nas mãos de milhões de patriotas autodesmoralizados como eu, que já acreditávamos que algo daquele tipo teria, sim, acontecido.

Se o funeral de Nixon caísse em mãos certas, o esquife teria sido jogado num daqueles canais de esgoto a céu aberto que desaguam no oceano na parte sul de Los Angeles. Como homem foi um porco; como presidente, falastrão mentiroso. Nixon foi tão pervertido e trapaceiro que he needed servants to help him screw his pants on every morning. Até o funeral dele foi ilegal. He was queer in the deepest way. O cadáver de Nixon deveria ter sido queimado numa lata de lixo.

São palavras duras para um homem que foi recentemente canonizado pelo presidente Clinton e meu velho amigo George McGovern – mas escrevi coisas piores sobre Nixon muitas vezes, e os registros provarão que eu já o chutara ladeira abaixo repetidamente muitas vezes desde muito tempo antes de ele correr por conta própria ladeira abaixo. Espanquei o desgraçado como se espanca cachorro hidrófobo e todas as vezes que tive chance, e muito me orgulho disso. Nixon sempre foi a escória mais desprezível.

Que não restem erros nos livros de História sobre o tema. Richard Nixon foi homem do mal – maléfico de um modo que só quem creia na realidade física do vampiro endemoniado conseguirá compreender. Era absolutamente sem ética e sem moral, sem qualquer senso de decência. Ninguém jamais confiou nele – exceto talvez os stalinistas chineses, e historiadores honestos o recordarão sobretudo como ratazana que nunca desistiu de tentar voltar ao convés do barco.

Combina bem com esse quadro, que o gesto final de Richard Nixon ao povo dos EUA tenha sido uma série claramente ilegal de 21 disparos com canhões howitzer de 105-mm que destruiu a paz de um quarteirão residencial e feriu emocionalmente, para sempre, incontáveis crianças. Os vizinhos também muito reclamaram de mais um sepultamento não autorizado no jardim da antiga casa dos Nixon – absolutamente ilegal. "Converteu todo o quarteirão em cemitério" – disse um morador. – "E destroçou o senso de valores morais dos meus filhos."

Muitos se indignaram com os disparos dos howitzers – mas sabiam que nada conseguiriam fazer para evitar –, não, com certeza, com o novo presidente sentado a poucos quarteirões de distância e rindo do rugido dos canhões. Foi a última guerra de Nixon, e ele venceu.

O funeral foi negócio horrendo, encenado para a TV e canalhamente controlado por políticos ambiciosos e historiadores revisionistas. O reverendo Billy Graham, ainda ágil e eloquente aos 136 anos de idade, estava escalado para fazer o discurso principal, mas foi rapidamente derrubado do púlpito por dois candidatos presidenciais dos Republicanos de 1996, senador Bob Dole do Kansas e o governador Pete Wilson da Califórnia, que fez as vezes de anfitrião formal do evento e viu seus números de pesquisa despencarem, quando foi chutado do púlpito por Dole, que, sabe-se lá como, ocupou o lugar número 3 nas falas e fez discurso tão desavergonhado, tão canalha, e se autoelogiou tanto, que até ele mesmo explodiu em lágrimas quando parou de falar.

O preço das ações de Dole subiram como foguete e o puseram à frente nesse início de corrida pela indicação dos Republicanos para 96. Wilson, que falou na sequência parecia clone de Engelbert Humperdinck e provavelmente não conseguirá nem ser reeleito governador da Califórnia em novembro.

Os historiadores estiveram fortemente representados na pessoa do segundo a discursar, Henry Kissinger, secretário de Estado de Nixon e ele mesmo revisionista dedicado com muitas contas a acertar com muita gente. Deu o tom geral da cerimônia, com retrato meloso e espetacularmente condescendente de Nixon, pintado como ainda mais santo do que a mãe dele, e como presidente merecedor de loas por muitas divinas realizações – a maioria das quais montadas clandestinamente por Kissinger, que estava de passagem pela Califórnia como parte de gigantesco tour publicitário para divulgar seu novo livro sobre diplomacia, sobre o gênio, sobre Stálin, H. P. Lovecraft e outros grandes cérebros do nosso tempo inclusive o dele mesmo e Richard Nixon.

Kissinger foi apenas um dos muitos historiadores que repentinamente passaram a ver Nixon como mais que a soma de suas muitas ralas partes. Dava a impressão de querer dizer que a História nem precisará absolver Nixon, por que ele, Kissinger, já o absolvera num ato de vontade e arrogância ensandecidas que realmente o torna supremo, ao lado de outros super-homens Nietzscheanos feito Hitler, Jesus, Bismarck e o imperador Hirohito. Esses revisionistas catapultaram Nixon ao status de um Cesar norte-americano, aos brados de que, quando se escrever a história definitiva do século 20, nenhum outro presidente chegará sequer aos pés de Nixon em estatura: "Fará desaparecer FDR e Truman", segundo um professor da Duke University.

Só besteira, claro. Nixon foi tão santo quanto Grande Presidente. Sempre esteve muito mais para feladaputa sem vergonha e sem coração como Sammy Glick, que para Winston Churchill. Foi escroque barato e impiedoso criminoso de guerra que matou mais gente no Laos e no Cambodia do que o total de soldados norte-americanos mortos em toda a 2ª Guerra Mundial, e negou tudo até a morte. Quando alunos da Kent State University, em Ohio, protestaram contra as bombas e a matança, Nixon deixou que fossem atacados e massacrados por soldados da Guarda Nacional.

Haverá quem diga que palavras como "escória" e "rato podre" não servem ao Jornalismo Objetivo – o que é verdade, mas não entenderam do que aqui se trata. Foram precisamente os pontos cegos incorporados nas regras e dogmas da Objetividade que, para começo de conversa, abriram o caminho para que Nixon conseguisse penetrar na Casa Branca. Parecia tão boa gente no papel, que alguém quase votaria nele de olhos fechados. Parecia tão puro-norte-americano, tão parecido com Horatio Alger, que conseguiu esgueirar-se entre as frestas do Jornalismo Objetivo. Para ver Nixon com clareza, é preciso virar Subjetivo, e o choque ante o que então se vê é quase sempre doloroso.

A ascensão meteórica de Nixon, da fila de desempregados para a vice-presidência em apenas seis rápidos anos, jamais teria acontecido se a TV tivesse aparecido dez anos antes. Ele foi-se safando com o discurso vagabundo do "meu cachorro Checkers" de 1952, porque a maioria dos eleitores ouviu-o pelo rádio ou leu nas manchetes de jornais Republicanos de província. Quando Nixon finalmente teve de enfrentar câmeras de TV nos debates da campanha presidencial de 1960, apanhou mais que mula empacada. Até os mais duros de matar dentre os eleitores Republicanos ficaram chocados ante a persona malévola e incompetente de Nixon. Interessante: a maioria das pessoas que assistiram àqueles debates pelo rádio pensaram que Nixon havia vencido. Mas o público de TV, que então proliferava como cogumelos, viu nele a falsidade de vendedor desonesto de carros usados e votou conforme essa percepção. Foi a primeira vez, em 14 anos, que Nixon perdeu uma eleição.

Quando Nixon chegou à Casa Branca como vice-presidente aos 40 anos, era um jovem esperto em ascensão – um monstro enlouquecido de húbris saído dos intestinos do sonho americano, com um coração inchado de ódio e uma ânsia obscena para chegar à presidência. Havia vencido todas as eleições às quais concorrera e passou em marcha batida, como um nazista, sobre todos os seus inimigos e até sobre alguns de seus amigos.

Nixon não tinha amigos, exceto George Will e J. Edgar Hoover (e os dois o abandonaram). Foi a morte desavergonhada de Hoover em 1972 que levou diretamente à queda de Nixon. Sem Hoover, ele sentiu-se desamparado e só. Já não tinha acesso nem ao Diretor nem ao pavoroso banco de Arquivos Pessoais do Diretor sobre praticamente todos os habitantes de Washington.

Hoover era o flanco direito de Nixon, e quando se danou, Nixon viu o que era ser Lee quando Stonewall Jackson foi morto em Chancellorsville. A morte deixara permanentemente exposto o flanco de Lee e levou ao desastre em Gettysburg.

Para Nixon, a perda de Hoover levou inevitavelmente ao desastre de Watergate. Foi obrigado a nomear novo Diretor – que acabou por ser um bajulador desgraçado de nome L. Patrick Gray, que chiou feito porco em óleo fervente logo na primeira vez que Nixon precisou dele. Gray entrou em pânico e dedurou John Dean, Conselheiro da Casa Branca, que se recusou a segurar o rojão e em vez disso pulou sobre Nixon, que foi apanhado como um rato pelo testemunho de Dean, implacável, de vingança feroz, e desabou aos pedaços, bem ali, diante dos nossos olhos na tela da TV.

Aí está Watergate, em três linhas, para gente com problema grave para manter o foco de atenção por períodos um pouco mais longos. A história real é muito mais comprida e pode ser lida como manual prático do potencial humano para trair. Todos eram a escória da escória, mas só Nixon escapou livre e viveu o suficiente para limpar o próprio nome. Ou, no mínimo, é o que conta Bill Clinton – e, afinal de contas, era o presidente dos EUA.

Nixon gostava de fazer as pessoas lembrarem-se disso. Acreditava nisso e por isso caiu. Não foi só escroque absoluto, foi também absoluto imbecil. Dois anos depois de deixar a presidência, ainda dizia a um jornalista, pela TV, que "se o presidente faz, não pode ser ilegal".

Que lixo. Nem Spiro Agnew foi tão idiota. Foi bandido sem espinha dorsal, rastejante, com a moral de uma fuinha com pressa. Mas foi vice-presidente de Nixon por cinco anos, e só renunciou quando foi apanhado com a mão na botija, literalmente recebendo dinheiro de propina em cima de sua mesa no próprio gabinete na Casa Branca.

Diferente de Nixon, Agnew nem discutiu. Deixou a vice-presidência e à noite fugiu para Baltimore, onde reapareceu na manhã seguinte diante do juiz da Corte Distrital dos EUA, o qual lhe permitiu ficar fora da cadeia acusado de crime de corrupção e extorsão, em troca de uma confissão de culpa numa acusação (não contestada) de crime de evasão do imposto de renda. Depois disso, já convertido em celebridade, Agnew jogou golfe e tentou conseguir uma franquia como distribuidor da Coors. Nunca mais voltou a falar com Nixon e foi avisado de que não seria admitido no funeral. Foi chamado de grosseirão, mas mesmo assim lá estava, no funeral. Foi um desses Imperativos Biológicos, como o salmão que escala as mais impossíveis quedas d'água para desovar no ponto mais alto, antes de morrer. Sempre soube que era escória, mas nem ligava.

Agnew foi o Joey Buttafuoco do governo Nixon, e Hoover foi seu Calígula. Eram brutais, degenerados por lesão cerebral grave, piores que qualquer matador de O Poderoso Chefão, mas mesmo assim foram os homens em que Richard Nixon mais confiou. Juntos, todos eles definiram sua presidência.

Seria fácil esquecer e perdoar Henry Kissinger por todos os seus crimes, assim como ele perdoou Nixon. Sim, se poderia fazer – mas seria erro grave. Kissinger é diabo ensaboado, prostituta de classe mundial com pesado sotaque alemão, e faro fino para descobrir pontos fracos na estrutura de poder. Nixon foi precisamente um desses pontos, e Super K o explorou sem dó, do primeiro ao último dia.

Kissinger completou a Camarilha dos Quatro: Agnew, Hoover, Kissinger e Nixon. Uma foto desses quatro pervertidos diria tudo que é preciso saber sobre a Era Nixon.

O espírito de Nixon permanecerá conosco pelo resto de nossas vidas – da minha, da sua, da vida de Bill Clinton, ou de Kurt Cobain ou do Bispo Tutu ou do irmão de 16 anos de sua noivinha, bêbado de cerveja, com aquele cavanhaque em ponta e a vida inteira pela frente como nuvem de tormenta. Não é coisa de geração. Você nem precisa saber quem foi Richard Nixon, para já ser vítima daquele feio espírito dele, de nazista.

Nixon envenenou nossa água para toda a eternidade. Nixon será para sempre lembrado como caso clássico de homem esperto, que cagou no próprio ninho. Mas ele também cagou no meu, no seu, nos nossos ninhos, e esse foi o crime que a história gravará nas memórias que restarem dele, como marca gravada a fogo. Por ter degradado a presidência dos EUA, por ter fugido da Casa Branca como cão empesteado, Richard Nixon rachou para sempre o coração do Sonho Americano.*****
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Hunter S. Thompson, The Atlantic (orig. de Rolling Stone, tradução sem finalidades comerciais, para

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