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Não há padrinhos na Casa Grande. Juliana Borges

publicada em 19 de abril de 2017
Não há padrinhos na Casa Grande
Juliana Borges
http://justificando.cartacapital.com.br

Viver é se posicionar. Por isso que, a cada dia que passa, tenho me identificado mais com a expressão cunhada por Sueli Carneiro: “Entre Esquerda e Direita, sou Preta!”. Alguns atribuem neutralidade negativa nesta frase. Eu vejo de outro modo.


Muito se tem comentado sobre a fala, infeliz, da Ministra dos Direitos Humanos Luislinda Valois, em evento no Palácio do Planalto estes dias, no qual ela afirmou ser o Presidente Michel Temer “padrinho” das mulheres negras. Recebi mensagens inbox, de whatsapp, fui marcada em posts, “convidada” a compartilhar cartas. Decidi escrever com a cabeça fria e o espírito livre. E assim, retomo o fio da meada do primeiro parágrafo.

Ao nascermos, nós negros já vivemos uma série de contradições e opressões que não percebemos de pronto. O parto já é uma experiência violenta pela violência obstétrica, fruto do racismo institucional – em números, 65,9% das mulheres que relatam ter sofrido violência obstétrica são negras (FIOCRUZ, 2014). Já ao nascer somos denominados “pretos”. E ser nominado “preto” significa, já no hospital, deter menos atenção, menos cuidados – 53, 6% das vítimas de mortalidade materna são mulheres negras (Ministério da Saúde, 2015). Mas não temos ainda as capacidades para entender algo como isso. Vamos crescendo.

A infância é uma série de contradições. Já nos desenhos, não nos vemos. Mas, como apenas existe o convívio familiar, ainda não sabemos que somos negros. Somos criança. Somos o bebê da família. Aqueles desenhos infantis, apenas com representações brancas, não fazem sentido racial, se não pura diversão. Mas aí vem a escola e é neste ambiente, ainda novos, que sabemos que somos “pretos”. Os que vieram de “escravos”, como se uma condição natural e permanente. Riem de nossos cabelos, de nosso tom de pele, zombam. Queremos sumir. Queremos negar. Dizemos que temos um avô europeu. Mas não sabemos quem ele é, de onde exatamente veio, se “de trás dos montes”, ou de outro lugar que o valha. Apagamos tudo o que podemos e que nos ligue ao ser “preto”. Incorporamos insultos como “piadas normais” e/ou “brincadeiras tranquilas”. Alisamos, raspamos, desafricanizamos. Tudo que é ligado ao “preto”, a África é negado, silenciado, apagado.

Ou nos posicionamos. Dizer-se “preto” em uma sociedade de aculturação e assimilação é como um ato político de resistência. Não é uma decisão fácil, nem uma percepção direta. É preciso reconstruir-se “preto”, reconectar-se “preto”, forjar a identidade negra. Dizer-se “preto” é perigoso e acarreta uma série de implicações e consequências simbólicas e políticas. Físicas. Dizer-se “preto” é colocar-se na primeira fila do fuzilamento policial, das chacotas estudantis, da negação identitária, do elevador de serviço, dos que devem ser seguidos por seguranças e funcionários em lojas de departamento, dos que serão observados de modo diferente e desconfiado nas ruas, dos que serão mortos e acometidos pela violência policial e social – a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado (CPI do Senado sobre violência contra jovens negros, 2016).

Por isso que dizer-se “preto” antes de dizer-se de esquerda ou de direita é tão mais profundo e comprometido. Há 500 anos morre-se neste país por ser e dizer “preto”.

Neste sentido, no campo simbólico e das relações morais, afirmar-se “preto” traz ainda outro encargo: não é permitido errar. Quando a sociedade não lhe assassina psicologicamente, nem fisicamente, ela prontamente lhe assassinará moralmente. Mesmo, e inclusive, os que não tem nenhuma condição para tal. É por isso que posicionar-se “preto” tem uma sobrecarga. Afirmar-se “preto” significa, no campo moral, que não se pode errar, não se pode titubear. A espada não é da justiça, mas justiceira nestes casos. Uma das consequências é um padrão de conduta que será sempre supervisionado, principalmente por não-negros, que acham que, ainda, lhes devemos algo. Que nossas trajetórias construídas a partir de nossa afirmação em sermos “pretos” devem a eles alguma coisa, alguma “conquista”. E esta situação pode gerar alguns tipos de conduta. Infelizmente, uma delas é a de aceitação e agradecimento aos algozes de méritos da coletividade que é tão e somente “preta”.

O maior equívoco da Ministra Luislinda Valois, a meu ver, não é ser de direita. Não somos seres unos, homogêneos. Não temos a obrigação de carregar, mais uma vez, em nossas costas o conforto de todos. E isto deve ser compreendido. “Pretos” são tão diversos e complexos quanto qualquer outro ser humano (características que brancos ainda acham exclusivas de sua cor). O maior equívoco da Ministra Luislinda, para mim, como mulher negra, é agradecer aos seus algozes. O equívoco maior, porque não deixa de ser um equivoco, não está no fato de compor um governo golpista. Mas no fato de compor um governo golpista com setores dos mais retrógrados e conservadores do país, ou seja, com os herdeiros escravocratas. Com os herdeiros dos “méritos” de sua própria exclusão e espera por 8 anos para ocupar um cargo que sempre teve direito, como Desembargadora. Com os herdeiros dos estupradores de nossas ancestrais. De compor e agradecer àqueles que desfrutam conforto consequente de um passado, e de um presente, que escravizou e precariza a vida de gente “preta”.

Não farei textos como a branquitude demanda (podem demandar algo de mim?) ou como muitos esperam. Porque dizer que racismo é estrutural e estruturante significa dizer do emaranhado complexo desta opressão e de como se expressa nas relações. Tão pouco, passarei a mão na cabeça de uma mulher adulta, fazendo uma limitada análise de representatividade (já escrevi diversas vezes que representatividade é um meio e não um fim). Mas quero expressar a complexidade que uma opinião, frente a uma opressão que nos corrói politicamente, economicamente, psicologicamente e fisicamente, sobre aquela infeliz e equivocada fala demanda.

Acredito que a Ministra Luislinda Valois, portanto, não feriu a minha história. Mas a de si própria. Uma história de vida, marcada por enfrentamento aos obstáculos do racismo, ferida profundamente por uma frase. Acredita no que disse?

Juliana Borges é Feminista Negra. Pesquisadora em Antropologia na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde cursa Sociologia e Política. Foi Secretária Adjunta de Políticas para as Mulheres da Prefeitura de São Paulo (2013).
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