Quinta-feira, 19 de outubro de 2017.

Sorria: Você está sendo enganado. Cristiano Augusto Rodrigues Possídio

publicada em 24 de março de 2017
SORRIA: VOCÊ ESTÁ SENDO ENGANADO

Uma das coisas do senso comum em política, e muitas vezes na vida é a de que o discurso e a prática, regularmente, revelam-se totalmente antagônicos. Quantas vezes, nesse “mundinho” que insistimos em chamar de “meu”, ao invés de chamar de “nosso”, dentro e fora da política, ouvimos um discurso encantador, moralista e puritano, logo comprado a qualquer preço para depois, na prática, depararmo-nos com uma lógica completamente diversa, perversa e cruel?
O que fazer depois do tombo? Assimilar o golpe e sustentar a dor para sermos tangidos como gado ao abate ou, assimilar o golpe, “levantar a poeira e dar a volta por cima”?
Prefiro a segunda opção, mesmo que a ela preceda o necessário reconhecimento de que comprei “gato por lebre”. Fui enganado!
A aprovação da terceirização irrestrita, procedida ontem, 22.03.2017, no Congresso Nacional, junto à iminente ampliação da reforma trabalhista (leia-se: precarização das relações de trabalho) e da reforma previdenciária (comece a falar para si próprio: “quero ficar idoso; quem sabe também aposentado”), anuncia momento mais do que apropriado para um mea culpa coletivo, independentemente do tamanho do pato que você carregou nos protestos, ou não.
O ritmo de desconstrução de um modelo de país independente, com democracia sólida, instituições fortes, que se respeitam e obedecem a lei, assusta! Mercado, bolsa de valores, cotação do dólar e crise dominam o noticiário e, junto com ele, o nosso pensamento. Fazem parte do cotidiano dos brasileiros, impondo, inclusive, a aceitação desse “novo” modelo, porque supostamente inevitável!
Está em curso no país, na verdade, a chamada “Doutrina do Choque”; legado deixado a partir de teses criadas na Escola de Chicago, principalmente por seu “mago”, o economista Milton Friedman. É assim que funciona: aproveita-se de um momento de forte crise, que pode decorrer de retração econômica, guerra, tragédias naturais ou provocadas pelo homem para que a política neoliberal (no caso do Brasil ultra neoliberal), seja adotada de modo tão rápido, com privatizações, “reformas estruturais”, implantação do estado mínimo e liberalismo econômico, que não dá sequer tempo para uma reação dos movimentos sociais e da população em geral, impedindo a sua consubstanciação ou, ao menos, que debates sejam travados desmistificando o que se prega como verdade.
Estamos tão anestesiados com a pauta que nos vem sendo imposta há mais de 03 (três) anos – crise econômica, operação lava jato, corrupção etc. – que não estamos reativos à crueldade da prática por trás do discurso encantador.
O excepcional livro da escritora canadense Naomi Klein, A Doutrina do Choque, a ascensão do capitalismo de desastre, Ed. Nova Fronteira, é leitura obrigatória para entender o Brasil antes e pós-impeachment, através de exemplos da prática ocorrida pelo mundo, enxergando as políticas implementadas a partir da queda de presidente Dilma, permitindo mensurar o que nos reserva no provável futuro sombrio. Na obra, logo na introdução, você encontrará um resumo da doutrina feito pelo próprio Milton Friedman, quase que “antecipando” ou “prevendo” as justificativas para a implantação das políticas do “governo” Temer. Disse o economista norte-americano: “somente uma crise – real ou pressentida – produz mudança verdadeira. Quando a crise acontece, as ações que são tomadas dependem de ideias que estão à disposição. Esta, eu acredito, é a nossa função primordial: desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las em evidência e acessíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável”.
Para compreender que as palavras do já falecido Friedman fazem todo sentido no nosso “cardápio político” atual, basta meros dois questionamentos, cujas respostas são tão intuitivas que qualquer mortal brasileiro poderia dá-las, mesmo que não queria externá-las, preservando-as no seu subconsciente.
Seria possível, há pouco mais de três anos, antes das manifestações de 2013 (aquelas dos 0,20 centavos) e dos movimentos gestados ou fortalecidos a partir dali, quando a popularidade da ex-presidente Dilma, outrora alta, foi pulverizada, que as mudanças que você vê agora, implementadas a partir do impeachment, de fato ocorressem? Seria possível que qualquer candidato a Presidente da República, em 2014, se elegesse com a plataforma política decantada nas presentes reformas, com esse mesmo discurso atual e que estão sendo praticadas no pós-impeachment?
Convenhamos: o que era politicamente impossível de acontecer logo ali, nos idos de 2013, hoje é a nível de discurso, justificativa e prática das políticas neoliberais, vendidos e comprados por boa parte de nós como inevitável!
Se você não sabia, ou não tinha “se ligado”, fique sabendo: tudo o que está acontecendo, nada mais é do que “ideias que estavam à disposição”, postas em práticas depois de grave crise política e econômica. Passamos da fase do oportunismo – a tese de Friedman é oportunista ao extremo – para o discurso do “politicamente inevitável”. Nada de eleição sufragando projeto! Isso seria democrático demais para esse tipo de política avassaladora...
Quer ver se é isso mesmo? Exemplifico com dois discursos recentes de membros do executivo e do legislativo, figuras importantes nas mudanças propostas que afetarão milhões de trabalhadores brasileiros (ativos e inativos).
Sobre Reforma da Previdência, ninguém melhor para definir o plano já detalhado por Friedman que o atual Ministro da Fazenda. Notícia do G1, de 09.03.2017 – “Reforma da Previdência não é decisão, é necessidade”, diz Meirelles. http://g1.globo.com/economia/noticia/reforma-da-previdencia-nao-e-decisao-e-necessidade-em-funcao-das-contas-publicas-diz-meirelles.ghtml
Captou na fala do Ministro a “necessidade” de reforma, que não conta com qualquer debate sério para sua maturação? “Necessidade” igual a “politicamente inevitável”, por isso “deve” ser realizada de bate pronto!
Sobre Reforma Trabalhista, leia-se o que disse, em 11.03.2017, o presidente da comissão na Câmara que estuda a matéria: “Mudanças nas relações de trabalho fazem reforma ser necessária”, diz Daniel Vilela. http://www.jornalopcao.com.br/ultimas-noticias/mudancas-nas-relacoes-de-trabalho-fazem-reforma-ser-necessaria-diz-daniel-vilela-89255/
Entendeu a “necessidade” ou precisa desenhar?
É só clicar nas matérias para perceber a beleza do discurso; apto a convencer qualquer incauto. O deputado Daniel Vilela, por exemplo, afirmou com ares de verdade absoluta que “As relações de trabalho mudaram, são totalmente diferentes daquelas da época da constituição da CLT, então é preciso avançar nesse sentido”. Caso você tenha a tendência de mirar a CLT, apenas a partir da data de sua promulgação (e não se engane, muita gente boa o faz), provavelmente balançará a cabeça positivamente. Quem pode se contrapor a esse discurso de modernidade?
É... Mas existem vozes divergentes, bem eloquentes, que, entretanto, não têm o mesmo grau de interesse na divulgação ou são abafadas por mais uma condução coercitiva; busca e apreensão; prisão; avião que cai; Ministro que falece; Ministro que toma posse; e outras pautas da mídia, tipo atriz global que levou o cachorro para passear, ou simplesmente, “vai para Cuba”!
O discurso do deputado não surpreende; é ignóbil e não resiste as argumentações mais singelas. Tão raso o raciocínio. Induz o deputado que estamos em pleno 2017 com uma legislação inalterada desde 1943. O problema é a falsidade do discurso, não esclarecido no mesmo grau de amplitude das suas declarações, quando se percebe que a CLT foi objeto de inúmeras mudanças ao longo dos anos, decorrentes exatamente dos avanços nas relações desenvolvidas entre o capital e trabalho e a própria necessidade de adequá-las à realidade.
Tão pífia e primaz dedução do deputado. É como se a Constituição Federal de 1988 não existisse ou fosse um mero detalhe, no universo do ordenamento jurídico brasileiro – e como a Constituição tem sido, na prática, desrespeitada. A Carta Política de 1988 já relativiza o que de mais importante há para o trabalhador que é o seu salário e sua jornada. Na Lei Maior do país, para governo desse deputado reformista, já existe previsão no art. 7º, VI e XIII, quanto à possibilidade de redução salarial e compensação de jornada, via exatamente acordos ou convenções coletivas (negociações patrões e empregados, através de entidades sindicais). Vou repetir: REDUÇÃO de salário! COMPENSAÇÃO de jornada, permitindo trabalhos em regimes extraordinários, quando necessário ao empregador, porém compensados posteriormente.
Portanto, meus caros, diante do discurso e práticas atuais, comemore muito se você é adepto, entusiasta, ou até mesmo um mero “torcedor de arquibancada” da doutrina e lógica neoliberal (estado mínimo, liberdade ampla e irrestrita de mercado), muito defendida por quem, no fundo, aplaude e não vê absolutamente nada demais que 1% da “riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial”, desde o ano passado, equivalha “pela primeira vez, à riqueza dos 99% restantes” – reportagem de 18.01.16 da BBC Brasil http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160118_riqueza_estudo_oxfam_fn. Parabéns; você vive, desde 2016, no Brasil dos sonhos, embora provavelmente em breve acordará com a realidade de muitos pesadelos batendo à sua porta.
Caso pense de modo contrário, as notícias não são boas; sinto dizer que certamente a tempestade seguirá bem longe da bonança e pode piorar, principalmente se não houver algum movimento, pacífico e democrático, que mude a rota reacionária e conservadora em curso, estabelecida desde que esse “governo” foi alçado ao poder! Estamos prestes a sufragar e sentir os efeitos dessas reformas, que de fato têm discurso atraente, quase irresistível e são vendidas como inevitáveis; entretanto, na prática, trarão efeitos devastadores no lar, relações e vida do trabalhador brasileiro.
Conscientize-se, apesar de sorrir, ainda que passe a vislumbrar de modo mais claro a maldade nas ações e gestos, sustentados por sorrisos falsos! Mesmo na dor, temos que nos esforçar por buscar algo positivo para vencer. Agora, sorria sabendo que você foi – e pode ainda estar sendo – enganado. Principalmente você que, inocentemente ou inconscientemente, protestou e tornou o “politicamente impossível” em “politicamente inevitável”, acabando por retirar da sombra e espreita, traidores, lesas-pátrias, oportunistas, angorás e coisas do gênero.
Reconheça e diga em alto e bom som: fui enganado! Você e todos nós!
Mesmo aqueles que, como eu, não empunharam a imagem do pato ou se uniformizaram com a camisa da CBF. Esse “barco” chamado Brasil, prestes a afundar no rio de conquistas sociais e protagonismo mundial, pertence a todos nós, independentemente dos erros que cometamos. Somente no senso de coletividade, acharemos as soluções para o soerguimento.
Como essas reformas não interessam a você, trabalhador brasileiro, seria bom um choque de realidade, para combater a “Doutrina do Choque”, até porque o “deus-mercado” e o capital, não sobrevivem sem o homem, seu trabalho e consumo!
Acorde enquanto é tempo!
O escritor e humorista americano, Mark Twain, certa vez disse que “É mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que elas foram enganadas”. Espero, sinceramente, que ao menos dessa vez, Twain não tenha razão, embora a tenha, regra geral. Para isso devemos começar a nos questionar.
E você? Já se convenceu?

Cristiano Augusto Rodrigues Possídio
Advogado em Salvador – Bahia 
Versão para impressão Envie para um amigo Deixe seu comentário
Whatsapp

Envie esta notícia para seus amigos

Seu nome:
Seu e-mail:
Enviar para:
envie para vários e-mails separando-os com vírgula

Deixe seu comentário sobre esta notícia

Seu nome:
Seu e-mail:
Escreva seu comentário:
0 caracteres utilizados. Máximo 100 caracteres.

Digite o código contido na imagem ao lado:
Caso não consiga ler o texto da imagem, clique aqui.

Comentários

Nenhum comentário ainda foi registrado.
Seja o primeiro a comentar! Clique aqui ››

Contato

Telefone
(61) 35418388
(61) 93094422