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Circunstâncias da morte do Presidente João Goulart. João Otavio Brizola.

06 de setembro de 2011

Circunstâncias da morte do Presidente João Goulart


Quando recebi a notícia que meu tio João Goulart havia falecido, encontrava-me em Búzios, no litoral do Rio de Janeiro. Era uma segunda-feira de manhã e preparava-me para voltar ao Rio, onde estudava. Após comunicar-me com meus pais em Montevideu (Leonel Brizola e Neusa Goulart Brizola), apressei o retorno para viajar imediatamente a Porto Alegre e por terra para São Borja, onde consegui carona com meus primos.

Chegamos no dia seguinte, antes do meio dia. O cenário já estava armado. O acesso à igreja, cercada pelo Exército e PMs, restrito, um caixão lacrado, e dezenas de sinistros agentes com óculos escuros perambulavam pela igreja. Ali, encontrei a tia Maria Teresa (esposa de Jango), minha mãe Neusa, outras tias e pessoas que haviam conseguido "furar o cerco". O ambiente era de devastação total. Após alguns minutos fui com minha mãe à casa de um amigo e ela contou a triste odisséia que foi a viagem desde Villa Mercedes. Ficaram retidos mais de três horas na fronteira por ordem de um tal "Coronel Negrão" que fez questão de mostrar seus poderes ditatoriais à toda comitiva.

Ainda contado por minha mãe, ao chegar a São Borja foram preparar o corpo e ao abrir o féretro havia uma estranha secreção em todo o corpo (É necessário esclarecer que havia outras pessoas que testemunharam este momento, e o assunto foi comentado muitas vezes). Imediatamente, por ordem dos militares, aí sim, foi o caixão foi lacrado e não mais aberto (Seriam estas as 48 horas?). O exercito não queria permitir que fosse colocada uma bandeira nacional, mas prevaleceu a vontade, e esta foi colocada, assim como uma grande faixa pedindo "Anistia". No trajeto ao cemitério a PM quis colocar o caixão num carro e a multidão não permitiu, gritando aos militares que ele seguiria "nos braços do povo", e todos nos revezamos entre a igreja e o cemitério de São Borja.

O percurso foi emocionante, e mesmo desafiados e xingados os militares não tiveram coragem de intervir. Havia mais de 20.000 pessoas. Acho que foi a primeira grande manifestação popular no Rio Grande do Sul depois do AI-5. No final discursaram o Sr. Pedro Simon, que somente falou da vocação política de São Borja (...) e Tancredo Neves, este sim pediu a conciliação nacional de forma veemente. Não lembro de outros discursos, mas guardei a sensação que a ditadura tinha sido desafiada naquele momento final.

A última vez que vi meu tio foi em Maldonado pouco tempo antes e não notei nada de anormal. Em Setembro de 1976 ele foi visitar a mãe e conversou a noite toda com meu pai depois de mais de 10 anos afastados. Foi o único encontro entre eles... Vários episódios estranhos aconteciam naquele tempo: Meu pai tinha uma vida discretíssima e praticamente morava na fazenda. Queixava-se constantemente que o seguiam, mas nada poderia fazer. Em Setembro de 1977 foi expulso do Uruguai em episódio que todos conhecemos.

Minha opinião, que presenciei os fatos, é que o caso Jango tem todos os ingredientes para ter sido mais um assassinato da ditadura. Por que não tomar um depoimento oficial do Sr. Neira? Ele não está preso? Por que não pedir aos governos argentino e uruguaio, que tanto têm se empenhado em esclarecer os crimes da ditadura, uma investigação minuciosa dos fatos?

Acho muito difícil que o governo Lula se interesse por este caso. Eles têm ódio do trabalhismo. Segundo meu pai, o trabalhismo é a consciência do PT. Eles não encaram...

João Otávio Goulart Brizola
 

postado por Joao Vicente Goulart às 19:26

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