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Este "blog" pretente abrir un canal de discussão da soberania brasileira em seu amplo contexto de legalidade constitutcional, seus caminhos e alternativas, que a Nação necessita para sua emancipação.

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A respeito de Jango

26 de setembro de 2011


Quando recebi de Feliciano Tavares o comunicado das celebrações a João Goulart que estão ocorrendo no Paraná, respondi numa carta tão longa que, pensei, virou um artigo que, ora, aqui publico.


Meu caro Feliciano,

Jango é uma pessoa não profundamente conhecida para a maioria do povo brasileiro, pois de fujão e inapto, passa a uma posição do político morto no exílio; e, de um ponto a outro, deixa-se de ser revelado quem e realmente , a meu ver, foi e continua sendo João Goulart: um Estadista, que não se iludia e nem era seduzido pelo poder e que o exercia com o único interesse de melhor servir à nação brasileira. Digo que continua sendo pelo fato de dele precisarmos, no presente tempo.
Jango representou o que de mais puro há na política: o exercício do bem comum, sem interesses pessoais. Sustentou, no exílio, 100 famílias e mantinha um hotel , no Uruguai, para acolher exilados perseguidos da Ditadura.
Mas o bem comum que exercia não era mera "caridade" de um gaucho rico e dono de terras e gado. O bem comum foi exercido ao longo de sua atividade política, sempre em defesa dos trabalhadores e dos excluídos de nosso País.
Este bem comum que ele perseguiu, ele o exerceu na maior competência, condizente com a visão política que possuía à época, de um País efervescente em idéias e de sentimento nacionalista, mas dependente economicamente de um império em plena Guerra Fria. Sua capacidade de negociar foi enorme, sustentando-o até os derradeiros dias de seu governo. E, ao contrário do que pregam, Jango, quando o acusam de oscilante, se firmou em sua percepção irredutível e democrática, da negociação.
Acredito que se equivocam os que atribuem a ele não ter feito a leitura correta das ditas "massas", ou de não ter atendido aos seus interesses. As "massas" não estavam organizadas, e se o estivessem, passariam por cima do Presidente, e se veriam, em seguida, diante do poderio da política do Big Stick e bélico norte-americanos.
Esquecemos, com uma persistente amnésia, que outros Países sofreram golpes em nosso Continente? Todos, sem exceção, com  uma forte presença norte-americana, visível ou velada, ostensiva ou recuada, mas forte e determinada.
A questão que acredito possa servir de fio condutor para compreendermos aquela época, são as alianças das nossas oligarquias, de nossa mídia, de nossas Forças Armadas, e de seus representantes políticos, ou seja, de como elementos nacionais contribuíram para o desfecho daquilo que alguns insistem em chamar do fim do "ciclo do populismo". Besteira, estamos aqui, no século XXI, tentando, às duras penas, implantar as Reformas de Base, pelas quais Jango lutou, firme em suas convicções; e ainda hoje, tentamos garantir direitos trabalhistas perdidos nas chamadas terceirizações neoliberais. Hoje, ainda, apesar de reconhecido esforço do governo federal ,nossos trabalhadores são arrebanhados como gado, quando uma classe presta serviço a si mesma,de se expandir, em nome do crescimento econômico e de seus lucros, lançando mão da força de trabalho disponível, como servos à disposição de seu senhor.
Já foi dito que crescimento é diferente de desenvolvimento, pois este último implica a melhoria da qualidade de vida da população. Sendo assim, toda atenção é pouca neste sentido.
Jango nunca foi um burocrata; foi um político orgânico, informal porque a política fazia parte de sua integridade pessoal. Longe de ser um carreirista, assumiu a Presidência da República com total responsabilidade. Sabia da gravidade de seu tempo. E, quando a Campanha da Legalidade o garante como Presidente, com o Regime modificado, aceita o desafio para, em seguida, costurar magnificamente, o retorno ao Presidencialismo. Sai vitorioso desta empreitada.
Bem , meu caro, você foi falar de um Presidente que me é muito caro. E o será, na memória nacional, ainda não revelada, e o será para a História que farejará, como quem busca algo de precioso para a nossa sobrevivência política, de brasileiros amalgamados.
Não quero negar a luta de classes (o que seria imperdoável), mas tampouco devemos em seu nome , negar o seu próprio percurso.
postado por Maísa Paranhos. às 15:00

Jango, Waldir e os caprichos da história

12 de setembro de 2011


Requerida pelo Grupo Tortura Nunca Mais e pelo Comitê Baiano pela Verdade, a Sessão Especial da Assembléia Legislativa  da Bahia contou com a presença de diversas entidades ligadas aos Direitos Humanos, no último dia 5, quando foram celebrados 10 anos da Comissão da Anistia.
Representando os exilados políticos durante a Ditadura, falou o Doutor Waldir Pires, Consultor Geral da República do Governo João Goulart. Waldir , que junto a Darcy Ribeiro, ministro-chefe da Casa Civil, foi dos  últimos do Governo Constitucional deposto, a sair do Palácio do Planalto na tentativa de transferir a resistência ao Golpe para o Rio Grande do Sul, aonde encontrava-se o Presidente João Goulart, descortinou os derradeiros dias de tensão e determinação daqueles homens que representavam a vontade popular.
Ao fazer um balanço seguro e emocionado , como testemunho integrante do governo, Waldir Pires avaliou que o a consciência democrática brasileira foi duramente ceifada. Uma geração de nacionalistas, historicamente construída, foi interrompida. O Brasil foi cindido. Nisso, pode-se dizer, os golpistas foram bem sucedidos. E nossa reconstrução tem sido árdua.
Outra cisão, porém foi impedida, e esta , pelo Presidente: a político-territorial. Ao exilar-se no Uruguai sem resistir, Jango, além de evitar uma guerra civil, impediu que Minas Gerais, já totalmente articulada com os EUA, se declarasse Estado beligerante e obtivesse legalmente apoio do País interventor, constituindo-se, conseqüentemente, dois “Brasis”: um golpista e o outro resistente, porém sem condições de lidar com o poderio imperial norte-americano.
O Presidente João Goulart, ao tomar a decisão do exílio, impediu que o Brasil fosse ceifado territorialmente, garantindo a unidade nacional.
A Comissão da Verdade provavelmente será aprovada pelo Congresso Nacional. A verdade emergirá.
Jango, Waldir, Darcy, o Grupo dos onze, e tantos outros, heróis anônimos, que surgirão, comporão o nosso álbum Retratos do Brasil e indeléveis ficarão em nossa memória confirmando que a história, esta senhora, como diz Galeano, tem seus caprichos...

postado por Maísa Paranhos. às 19:57

11 de Setembro: Allende, nós também temos nossos heróis!

10 de setembro de 2011

11 de Setembro: Allende, nós também temos nossos heróis!



È bom que se recorde também neste 11 de setembro, a vergonhosa derrubada do governo democrático do Presidente Salvador Allende.
Hoje com os documentos desclassificados pelo Departamento de Estado Americano, vemos através do trabalho de Peter Kornbluh do National Security Archives, a enorme participação do governo americano, através da CIA e seus agentes operadores das “ações encobertas” (cover actions) na preparação clandestina para derrubar a democracia socialista, eleita de forma constitucional e só pertencente ao povo chileno que queria construir a justiça social, no destino imposto pelas urnas e que só aquele país pertencia.

Os relatórios, Ação Encoberta no Chile 1963-1973, da Comissão Designada para Estudar as Operações Governamentais Relativas a Atividades de Inteligência, do Senado dos Estados Unidos, conhecido como Relatório Church, de 1975; o Relatório Hinchey sobre as Atividades da CIA no Chile, de Setembro de 2000, são alguns que mostram a eficácia clandestina e a intromissão dos EEUU em golpear democracias no mundo ao bel prazer de seus interesses.

O processo sempre tem semelhanças com outras intervenções de golpes em outros países latinos americanos como Brasil e Argentina.
A metodologia segue passos dirigidos, hoje sabemos disso pelo comitê dos 40 capitaneados pelo vergonhoso Henry Kissinger.

Campanha de desestabilização através da mídia, difamação, mentiras produzidas, financiamento a opositores militares e civis, organizações sociais, e até assassinatos dirigidos a quem entendem ser contra interesses americanos, tudo é valido e clandestino.
Assim o fizeram assassinando o Gral. René Schneider, comandante chefe do Exército de Allende.

O financiamento da CIA aos projetos de Manuel Contreras desembocou na Operação Condor que levou inúmeras vidas á morte e ao desaparecimento forçado em toda a América Latina.

Existe nesses anais do NSA o documento secreto 890 de março de 1986, que mostra o financiamento da CIA ao AID (Agencia Internacional para El desarrollo) em mais de 11 milhões de dólares para fim específico da derrubada de Allende.
O Golpe de Estado foi planeado pela CIA com colaboração da ITT desde 1971.


Já haviam dado o golpe militar no Brasil e contavam com o apoio maciço do General Médici para fazê-lo no Chile, no Uruguai e na Bolívia.

Existem sim atos terroristas no mundo e também temos a lamentar as vítimas inocentes do ataque ao World Trade Center nos EUA em 2001.

Mas temos que recordar que estas ações encobertas são produtos do terrorismo de Estado Norte Americano realizado contra muitas democracias legítimas em nosso continente.
Mas nós também temos nossos heróis!
Neste 11 de setembro nossa homenagem a eles, a Allende e aos anônimos chilenos que tombaram no caminho, pois suas lutas e suas mortes não serão esquecidas.





João Vicente Goulart
Diretor Presidente do IPG, Instituto João Goulart
 

postado por Joao Vicente Goulart às 11:58

Circunstâncias da morte do Presidente João Goulart. João Otavio Brizola.

06 de setembro de 2011

Circunstâncias da morte do Presidente João Goulart


Quando recebi a notícia que meu tio João Goulart havia falecido, encontrava-me em Búzios, no litoral do Rio de Janeiro. Era uma segunda-feira de manhã e preparava-me para voltar ao Rio, onde estudava. Após comunicar-me com meus pais em Montevideu (Leonel Brizola e Neusa Goulart Brizola), apressei o retorno para viajar imediatamente a Porto Alegre e por terra para São Borja, onde consegui carona com meus primos.

Chegamos no dia seguinte, antes do meio dia. O cenário já estava armado. O acesso à igreja, cercada pelo Exército e PMs, restrito, um caixão lacrado, e dezenas de sinistros agentes com óculos escuros perambulavam pela igreja. Ali, encontrei a tia Maria Teresa (esposa de Jango), minha mãe Neusa, outras tias e pessoas que haviam conseguido "furar o cerco". O ambiente era de devastação total. Após alguns minutos fui com minha mãe à casa de um amigo e ela contou a triste odisséia que foi a viagem desde Villa Mercedes. Ficaram retidos mais de três horas na fronteira por ordem de um tal "Coronel Negrão" que fez questão de mostrar seus poderes ditatoriais à toda comitiva.

Ainda contado por minha mãe, ao chegar a São Borja foram preparar o corpo e ao abrir o féretro havia uma estranha secreção em todo o corpo (É necessário esclarecer que havia outras pessoas que testemunharam este momento, e o assunto foi comentado muitas vezes). Imediatamente, por ordem dos militares, aí sim, foi o caixão foi lacrado e não mais aberto (Seriam estas as 48 horas?). O exercito não queria permitir que fosse colocada uma bandeira nacional, mas prevaleceu a vontade, e esta foi colocada, assim como uma grande faixa pedindo "Anistia". No trajeto ao cemitério a PM quis colocar o caixão num carro e a multidão não permitiu, gritando aos militares que ele seguiria "nos braços do povo", e todos nos revezamos entre a igreja e o cemitério de São Borja.

O percurso foi emocionante, e mesmo desafiados e xingados os militares não tiveram coragem de intervir. Havia mais de 20.000 pessoas. Acho que foi a primeira grande manifestação popular no Rio Grande do Sul depois do AI-5. No final discursaram o Sr. Pedro Simon, que somente falou da vocação política de São Borja (...) e Tancredo Neves, este sim pediu a conciliação nacional de forma veemente. Não lembro de outros discursos, mas guardei a sensação que a ditadura tinha sido desafiada naquele momento final.

A última vez que vi meu tio foi em Maldonado pouco tempo antes e não notei nada de anormal. Em Setembro de 1976 ele foi visitar a mãe e conversou a noite toda com meu pai depois de mais de 10 anos afastados. Foi o único encontro entre eles... Vários episódios estranhos aconteciam naquele tempo: Meu pai tinha uma vida discretíssima e praticamente morava na fazenda. Queixava-se constantemente que o seguiam, mas nada poderia fazer. Em Setembro de 1977 foi expulso do Uruguai em episódio que todos conhecemos.

Minha opinião, que presenciei os fatos, é que o caso Jango tem todos os ingredientes para ter sido mais um assassinato da ditadura. Por que não tomar um depoimento oficial do Sr. Neira? Ele não está preso? Por que não pedir aos governos argentino e uruguaio, que tanto têm se empenhado em esclarecer os crimes da ditadura, uma investigação minuciosa dos fatos?

Acho muito difícil que o governo Lula se interesse por este caso. Eles têm ódio do trabalhismo. Segundo meu pai, o trabalhismo é a consciência do PT. Eles não encaram...

João Otávio Goulart Brizola
 

postado por Joao Vicente Goulart às 19:26