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Solidariedade e literatura

26 de outubro de 2011


Muitas vezes, a solidariedade exige uma expressão material. Fui obrigada a uma reflexão mais aguda sobre minha prática de vida e meus discursos por um mundo melhor, a partir de um chamamento pelo qual fui profundamente tocada. Na presente semana recebi, da Associação de Psicanálise da Bahia, uma solicitação de doação de medula óssea. Imediatamente encaminhei o email para toda a minha rede e me senti em paz, já que havia feito o politicamente correto: comunicar a solicitação para todos os meus contatos. Fui para o trabalho pensando na pessoa de cuja vida depende uma doação.
Tomei ciência de que o HEMOBA, órgão receptor de tais doações, fica em Salvador, na Avenida Vasco da Gama, longe de minha casa e que portanto outras pessoas mais próximas, pensei teriam mais facilidade em atender ao pedido. Foi aí que me detive – no pedido. Alguém desesperado, talvez, faz uma campanha, para que um outro alguém doe alguma coisa que todos nós, repito, todos nós, temos em abundância e esta coisa pode salvar a vida de quem espera. Sem nos tirar nada, apenas a medula óssea, que não nos faltará, uma vez que a produzimos sistematicamente, podemos permitir que uma pessoa continue vivendo. Supus, com meu egoísmo, que a pessoa que espera poderia ser o meu filho. Imaginei o meu filho, próximo da morte, esperando pela iniciativa de alguém de boa vontade.
Fui tomada por uma dor visceral. Imediatamente, venci minha inércia: num pequeno intervalo de tempo, fui até o HEMOBA; tiraram o meu sangue para fazer a classificação, me cadastrei, tornando-me uma doadora. Não basta encaminhar emails. São tantos os encaminhados que nem abrimos!... O politicamente correto não basta para salvar a vida de quem espera com uma pequena sobrevida. É uma corrida contra o tempo.
Lembrei-me do livro de Steinbeck, As Vinhas da Ira, em que a personagem, não tendo o que oferecer a uma pessoa faminta, dá-lhe o leite que produzia para um filho nascido morto.
A literatura nos diz que sempre temos algo para doar que nos dignifica. Porque não venceremos nossa inércia que quase nos convence de nosso egoísmo?








postado por Maísa Paranhos. às 05:13